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domingo, 14 de fevereiro de 2016

Treinadores ou fantoches?

O comando do departamento de futebol do Fluminense, leiam-se Mario Bittencourt e Fernando Simone, mantém, reiteradamente, a estratégia de investir em treinadores de baixo custo para o clube e qualidade pra lá de duvidosa.

No começo, a desculpa foi a saída da Unimed, a perda do poder econômico e a aposta no “bom, bonito e barato”.

Para ser sincero, nunca acreditei nesse pretexto. As milionárias renovações dos contratos de Fred, Wagner, Jean e Cavalieri, por exemplo, não permitiram. Havia dinheiro, certamente não oriundo de uma torneira que o despejava de forma tão profusa nas Laranjeiras, mas ele existia.

E ainda houve a contratação estapafúrdia de Ronaldinho Gaúcho, outro desbarato da atual administração.

Para a atual temporada, nomes como Diego Souza e Henrique, cujos salários atingem somas elevadas, além de outros tantos que, mesmo imerecedores das vultosas quantias que recebem, continuam onerando os cofres do clube e oferecendo muito pouco ou nenhum retorno, são a prova cabal de que o Fluminense, em regra, gasta muito e gasta mal nas suas contratações.

Não questiono, evidentemente, as acertadas renovações de contrato ao fim da parceria com a Unimed, as quais deram fôlego suficiente para que o Fluminense suportasse o complicado ano que se avizinhava.

Nem é meu propósito avaliar o acerto e desacerto de cada contratação posterior. Via de regra, foram apostas que, diante da nova realidade financeira do clube, deveriam ter sido feitas.

A questão que se põe é: se havia dinheiro para contratar jogadores, por que não se considerou a hipótese de trazer um nome experimentado e vitorioso para treinador da equipe? Um técnico à altura do Fluminense não seria garantia de que desse certo. Muitos não deram, aqui e em outros clubes, mas daria ao torcedor a certeza de que haveria independência no comando técnico da equipe.

Talvez seja essa a palavra chave: independência. Cristóvão, Drubscky, Enderson e Eduardo Baptista são treinadores pouco experimentados, sem currículo e que têm, no comando do Flu, a oportunidade de ouro de suas vidas. Garantir seus empregos, portanto, deve ter sido a primeira meta que traçaram ao aceitarem trabalhar no Tricolor.

Devo imaginar, porém, que na mente desses desprestigiados treinadores, a garantia de emprego passa invariavelmente pela subserviência.

Talvez tenha sido essa subserviência, essa dependência, que os trouxe e os manteve no Fluminense, mesmo após pífios resultados. Talvez tenha sido esse critério reiteradamente repetido, num equívoco atrás do outro, desde Cristóvão até Eduardo, não se sabendo se essa cadeia irá mais longe.

Diante da cúpula do futebol tricolor, o acatamento irrestrito às suas ordens, mesmo inúmeras vezes equivocadas, além, é claro, do respeito às ponderações do líder da equipe, Fred, tenha sido preponderante para se criar um perfil adequado de treinador para o Fluminense atual.

Um perfil adequado à diretoria e ultrajante a todos nós torcedores.

Um clube da grandeza do Fluminense não pode se submeter a títeres travestidos de treinadores que aceitam a interferência de terceiros nas suas funções. Não há outra explicação, senão a de se ter no cargo um manipulável, as contratações dos nomes anteriormente citados.

Todos têm exatamente o mesmo perfil: pouca experiência, pouco currículo e bastante docilidade.

Eduardo Baptista é o fantoche atual. O Fluminense, sob o seu comando, tem um desempenho risível de mais de vinte jogos e apenas seis vitórias, sendo uma na atual temporada. Um desempenho que não se coaduna nem mesmo com treinador de Bacaxás da vida.

Mesmo assim, contudo, continua firme a forte à frente do time, garantido pela soberba daquele para quem o ano de 2015 foi positivo.

Já disse em outros momentos que o senhor Eduardo Baptista não deveria nem mesmo ter pisado nas Laranjeiras para a temporada 2016. Foi um erro crasso de planejamento, um erro que ainda não foi corrigido porque a vaidade e a soberba de quem manda no clube não permitem, porque “dar o braço a torcer” seria o reconhecimento da incapacidade profissional desses gestores.

Será demitido em breve, logo após o próximo vexame que, espero, não ocorra contra o arquirrival em 21 de fevereiro. Que vá antes e nos poupe da galhofa e que vão também, se ainda houver hombridade, os administradores que tantos malfeitos causaram ao Fluminense nos últimos anos.

Assim, ainda poderemos sonhar com um departamento técnico profissional, eficiente e dedicado ao Fluminense, que contrate um treinador à altura do clube e não mais um fantoche. Dessa forma, quem sabe, o ano que se vislumbra sombrio possa ser iluminado pelas mentes e corações de verdadeiros tricolores, proporcionando a todos nós a esperança em dias melhores.


É preciso recuperar a dignidade perdida em algum lugar desses últimos três anos, medida que passa pela reformulação imediata e integral do departamento de futebol, antes que seja tarde demais.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O futebol está podre

A realidade do futebol – fora das quatro linhas – é podre. Pudemos sentir o cheiro fétido que dele exala, ainda que guardadas as proporções devidas, dos recentes episódios envolvendo a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Se acreditarmos, porém, que a escória que comanda o esporte bretão se resume a Rubinhos e Euricos, estaremos muito enganados.
No âmbito regional eles são – imagino – o que de pior deve haver. Mas há muito mais escroques por aí. Desde que o futebol se tornou um grande negócio, graças a João Havelange, eles se multiplicam, ávidos por dinheiro e poder. Estão nas federações regionais, nas confederações nacionais, nas continentais e até – e principalmente – na própria FIFA.
A operação deflagrada no dia 27 de maio, e que decorre de investigação iniciada nos Estados Unidos da América, é prova disso. São 14 réus – sete foram presos, dentre eles o ex-presidente da CBF, José Maria Marin – cujas acusações abarcam, em síntese, fraudes, extorsões e lavagem de dinheiro, além de “suborno” para a escolha do país sede da Copa do Mundo de 2010 – África do Sul.
Quem acompanha o futebol de perto, inclusive os seus bastidores, sabe que não há qualquer novidade nisso. Escândalos de corrupção da FIFA são antigos e vão desde o triste episódio das bagagens dos jogadores brasileiros recém-chegados dos Estados Unidos após a conquista do mundial de 1994 até o pagamento de propinas aos dirigentes por empresas de marketing esportivo, com o intuito de conseguirem elevados contratos para divulgarem competições futebolísticas e ainda passam pela “farra dos ingressos” para as competições mais importantes, bem como recebimento de suborno para aprovarem países ou cidades sedes dos campeonatos continentais, por exemplo.
Segundo a Procuradora Geral dos EUA, Loretta Lynch, a interveniência daquele país decorre da prática dos crimes em território norte-americano, ante a utilização do seu sistema financeiro e a burla da legislação local. Acrescentou que a investigação não parará por aí, deixando uma clara mensagem à FIFA e a outras instituições ligadas ao futebol de que, com eles “o buraco é mais embaixo”. Imagino que a fala da Procuradora americana deve ter produzido efeito imediato nos grandes tubarões do futebol.
Ricardo Teixeira, por exemplo, que já não vinha mais ao Brasil, talvez esteja articulando a venda de sua mansão na Flórida a fim de procurar outro recanto paradisíaco para dilapidar os milhões que usurpou enquanto presidente da CBF e membro do conselho executivo da FIFA.
sujeirada levantada pela operação do FBI é apenas a ponta do iceberg. O futebol é comandado por tubarões que se vendem para privilegiar interesses de grandes empresários ligados ao marketing, presidentes de países, sheiks etc. O futebol mesmo, esse que se joga nas quatro linhas, fica em segundo plano. O que importa é o tamanho das arenas, o preço dos ingressos, as receitas da exposição das marcas, o lucro das entidades futebolísticas.
Na verdade, os americanos poderiam ter economizado tempo e dinheiro promovendo uma investigação que durou cerca de três anos e que envolveu todo o aparato logístico e tecnológico que conhecemos dos filmes e séries trazidos até nós. Tudo o que era necessário saber tem sido divulgado há anos por um senhor escocês chamado Andrew Jennings. Responsável pelo portal Transparency in Sports (transparencyinsports.org), esse repórter investigativo é a pedra no sapato dos poderosos da FIFA. Todas as falcatruas, toda a imensa podridão que envolve o mundo do futebol foram por ele denunciadas, em razão do que recebeu a alcunha de “Inimigo número 1 da FIFA”.
Se desejarem conhecer um pouco mais sobre a sordidez que é o futebol, leiam “Jogo Sujo – O mundo secreto da FIFA”, de 2011 e “Um Jogo Cada Vez Mais Sujo”, de 2014, ambos de Andrew Jennings ou “Jogada Ilegal”, do português Luís Aguillar, que trata mais especificamente das falcatruas que envolveram as escolhas das sedes das Copas do Mundo do Qatar e da Rússia.
Eu li e o futebol acabou um pouco para mim. Não fosse a paixão tão arraigada que nutro pelo Fluminense, teria desistido.
José Maria Marin e alguns outros foram presos, mas há muito mais por aí. Trata-se de uma verdadeira organização criminosa que há anos desenvolve práticas nefastas envolvendo a malversação de quantias milionárias, o enriquecimento de seus dirigentes e a destruição do futebol. Agora que os EUA estão envolvidos, possivelmente alguns desses maiores bandidos serão capturados, dentre eles o próprio Blatter.
E se forem um pouco mais a fundo, a rede também trará Ricardo Teixeira e Havelange. Se o leitor, por acaso, acredita que Havelange é inocente de toda essa acusação de roubalheira, basta ler os livros acima indicados e fatalmente mudará a sua opinião.
Se as nossas autoridades constituídas tiverem um pouco de vontade política, aproveitam o ensejo e desencadeiam já uma ampla investigação – informação é o que não falta – que apure as responsabilidades dessa corja de dirigentes nefastos que apenas se locupletam do futebol. Poderiam começar pela federação deste Estado, averiguando-se os malfeitos praticados por Rubinho e seu cupincha Eurico Miranda, passar pelas demais Federações e atacar o tubarão-mor Ricardo Teixeira – uma vez que, segundo as informações da polícia norte-americana, as patifarias datam, pelo menos, desde o ano de 1991.
Vale lembrar que até mesmo uma CPI foi instalada em 2000/2001 para apurar os desvios de conduta de Ricardo Teixeira, não tendo obtido êxito, contudo. No caso, uma investigação isenta deveria partir do Ministério Público, sob pena de transformar-se em mais uma encenação para a mídia e para todos nós, amantes do futebol.
Os interesses de grandes corporações internacionais, como a Nike e os lobbys de políticos ligados à bancada da bola podem ser um empecilho e um caminho para a impunidade, mas não se pode deixar de tentar fazer história passando a limpo o futebol no Brasil.
As causas do malfadado 7 a 1 estão aí, para quem quiser ver. É preciso expurgar do comando do futebol nacional esses bandidos travestidos de dirigentes. E para ontem.


segunda-feira, 2 de março de 2015

O impostor

(Publicado no site Panorama Tricolor em 01.03.2015)

O assunto pode parecer repetitivo, maçante, mas é necessário que seja rediscutido.

Em que pese a amiga e cronista aqui do Panorama Tricolor, Crys Bruno, com o brilhantismo que lhe é peculiar, ter traçado com absoluta propriedade o perfil do treinador Cristóvão Borges na sua crônica “O perdido e o passivo”, de 25 de fevereiro, não posso me abster de, também, tecer algumas considerações sobre o nosso comandante.

Cristóvão já deveria ter sido demitido após o fim da temporada de 2014. Manteve-se no cargo após, inicialmente, ter dobrado a sua pedida salarial – de duzentos para quatrocentos mil reais mensais – e, posteriormente, ter recuado, ante a perspectiva negativa de dificuldades financeiras que se avizinhava com a notícia do rompimento unilateral do então patrocinador-master do Fluminense, a Unimed.

Talvez as novas diretrizes impostas pela necessária redução das despesas tenha dado à torcida tricolor alguma tolerância em relação à sua permanência para 2015, uma vez que, pelo menos, era um nome que já conhecia o grupo e poderia começar um trabalho desde o início da pré-temporada, circunstância que lhe daria a oportunidade de escolher nomes para compor o elenco e interagir com o grupo desde a sua formação. Além disso, aceitara manter seu salário, enquadrando-se na nova política de gastos do Fluminense.

Confesso que, diante daquele quadro sombrio, eu mesmo entendi que Cristóvão era a opção mais viável para comandar o Fluminense. Fiz vista grossa ao seu passado recente como treinador do Flu, aos vexames monumentais a que fomos submetidos na temporada passada, e aceitei passivamente a sua escolha, dando-lhe novo crédito de confiança.

O início desta temporada, porém, indicia que as suas crônicas deficiências persistirão. Embora tenha tido tempo suficiente para treinar e avaliar os recém-chegados e a vantagem de já conhecer a espinha dorsal da equipe, Cristóvão ainda não conseguiu dar ao time um padrão tático. Algumas vitórias sobre adversários fraquíssimos encobriram a sua debilidade profissional, descortinada por ocasião das duas últimas partidas, quando enfrentou a melhor equipe dentre as consideradas de menor investimento e o primeiro clássico, sucumbindo em ambas as oportunidades com um futebol abaixo da crítica.

Cristóvão é treinador de uma nota só, criador de uma estratégia defasada e previsível – bolas ao Fred -, que não foi capaz de se reinventar, de recursos escassos e que raramente consegue desconstruir a estratégia de um adversário que possua um sistema defensivo sólido ou, mesmo, alterar um panorama adverso dentro de uma partida.

O Fluminense não precisa de mais um enganador, precisa de um profissional que explore o potencial de uma equipe tecnicamente qualificada – mesmo após a saída de importantes jogadores - que não produz como poderia e deveria e que esteja à altura da sua grandeza. E esse é um problema de quem decidiu trazê-lo e mantê-lo ao privilegiar a política do “bom, bonito e barato”, política que, ao menos quanto à escolha do comandante, se mostrou equivocada e incompatível com a história grandiosa do Clube.

Aí está a chamada economia porca. Esforços foram envidados para que jogadores como Cavalieri, Gum Jean, Fred e Wagner renovassem seus contratos, mas o principal, por onde tudo começa, foi esquecido. A garantia de um Fluminense minimamente competitivo em 2015 passará, necessariamente, pela escolha de um novo treinador, qualificado o suficiente para dar ao tricolor um rumo diferente deste que vem tomando.

Neste ponto, não se prega qualquer loucura, afinal de contas, no fantasioso e inflacionado mercado do futebol, nem sempre o mais caro é o melhor. Mas, quando um Doriva, com todo o respeito ao Doriva, consegue dar a um time medíocre como o do Vasco, uma organização tática e uma disposição que não se viu nos comandados de Cristóvão, é possível acreditar que bons treinadores – e nem tão caros assim – estejam em algum lugar deste imenso país à espera de uma oportunidade para mostrar o seu valor num clube como o Fluminense.

Um bom técnico é investimento, não é despesa. Um profissional arguto, experiente, estrategista poderá aproveitar melhor o potencial de que dispomos e dar à equipe um sentido coletivo de organização dentro de campo, algo que não se vê há longo tempo.

Enquanto insistirem com Cristóvão, qualquer avaliação que se faça sobre os novos jogadores contratados poderá ser precoce e precipitada. Em boas mãos, alguns desses que hoje são questionados, podem se revelar muito mais úteis à equipe. E aí está uma das principais diferenças entre um treinador de verdade e um impostor.

Faço coro, portanto, à sua demissão como forma de dar ao Fluminense, no mínimo, esperança de uma temporada competitiva. A sua permanência nos relegará a um patamar inferior, distante daquilo que deve pretender um clube vitorioso em qualquer competição que dispute. Por outro lado, não creio que o recrudescimento do nome de Abelão, abertamente veiculado nas redes sociais após a derrota para o Vasco, seja a solução ideal. Seu estilo “paizão” e protecionista não se coaduna com a formação de uma nova equipe, em que somente ascendam à titularidade aqueles que tiverem mérito para tanto.


Imagino sangue novo. Alguém que possa dar ao Flu uma cara diferente daquela que se viu nos últimos anos. Por isso, é bom que já se pense num substituto, uma vez que este combalido campeonato carioca, se não predestina ninguém ao sucesso no restante da temporada, ante a notória fragilidade dos adversários, serve, contudo, para mostrar deficiências explícitas que, não corrigidas, poderão acarretar ônus elevados futuramente.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O Pança

Quando algum torcedor, indignado com a administração de seu clube, afirma que gostaria que o mesmo fosse gerido por Eurico Miranda, provavelmente não conhece a sua história. Pelo menos não totalmente. O lendário Eurico, aquele que apregoa que os interesses do Vasco da Gama estão acima de tudo, não existe. Trata-se de folclore criado por sua mente brilhante para justificar a sua presença, durante décadas, no comando do clube cruzmaltino, e dele se locupletar.

Tudo o que Eurico Miranda fez pelo Vasco, e que se possa entender por louvável, foi principalmente por interesse próprio. Enriqueceu às custas do clube.

Filho de portugueses que vieram para o Brasil fugindo da ditadura de Salazar, Eurico estudou em bons colégios da Zona Sul carioca. Ajudava seu pai na padaria da família e, antes de se decidir pelo Direito, foi aprovado nas faculdades de Medicina e Fisioterapia.

Sua carreira jurídica, porém, nunca prosperou. Vislumbrou desde muito cedo a possibilidade de crescer dentro do clube da colônia portuguesa. E foi nisso que investiu. Suas primeiras falcatruas, já como vice-presidente de patrimônio do clube datam de 1969 – no famoso episódio da “mão de Eurico” – quando tentou impedir a votação pela cassação de um ex-presidente vascaíno desligando a energia da sede náutica do Vasco.

O “Pança” não parou por aí. Construiu sua imagem política dentro do clube bajulando figuras importantes da cartolagem e colaborando na destruição de seus adversários. Logo tonou-se, traindo e bajulando, vice-presidente com poderes absolutos. A partir de então seus problemas financeiros, como o pagamento de prestações de um imóvel na Zona Sul carioca terminaram. Os anos 1990 foram pródigos para Eurico e para o Vasco. O clube foi um dos maiores vencedores da década e o dirigente, além de conseguir pagar seu imóvel, adquiriu uma mansão em Angra e comprou uma casa em Miami.

No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, o Pança passou a ter importante influência na federação de futebol do Rio e na própria CBF. A partir daí, coincidentemente ou não, o Vasco viveu os melhores anos de sua história. Cansou de subverter regras, invadir campo de jogo, burlar exames anti-dopings – caso Willian em 1994 foi emblemático – a fim de beneficiar o seu clube, sempre acobertado pelas federações de futebol.

Eleito deputado federal em 1994 e reeleito em 1998, sempre afirmou que seu mandato não era do povo, e sim do Vasco. Foi um dos representantes da cartolagem na Câmara e foi cassado após o escândalo do desvio de verbas do Nations Bank, depois Bank of America, que investiu milhões de dólares no futebol e no esporte amador vascaínos. Aremitas José de Lima, um simplório funcionário do clube, foi o seu “laranja” e milhões de dólares do patrocínio foram desviados por Eurico para contas em paraísos fiscais.

Eurico, então, criara uma cortina de fumaça – suas bravatas e sua suposta defesa incondicional do Vasco – para roubar o próprio clube. E não foi somente com o desvio de milhões do Bank of America, foi também com o sumiço de parte da renda que cabia ao Vasco – 62.000 reais – de um jogo contra o Flamengo, que levou para casa no próprio bolso para depois noticiar o suposto roubo da quantia na porta de seu prédio. O Pança também sempre esteve envolvido em negociações de jogadores cruzmaltinos e suas relações com Reinaldo Pitta nunca foram explicadas, muito menos o fato de a lancha ancorada na casa do dirigente em Angra pertencer ao empresário.

Mas o que se esperar de alguém que, desde cedo, conduziu sua vida pelos caminhos do crime. Na década de 1970 foi surpreendido desviando dinheiro do prédio em que era síndico. Anos depois, como gerente de consórcios da Besouro Veículos, de um benemérito vascaíno, foi demitido por lesar mais de 280 consorciados que pagaram integralmente as suas cotas, mas não receberam seus carros.

E a torcida vascaína, que diz tanto amar, também já foi diretamente a sua vítima. Na decisão da Copa João Havelange de 2001, contra o São Caetano, o alambrado do estádio de São Januário ruiu ante a superlotação, deixando 168 feridos que foram socorridos dentro de campo. Preocupado com a continuidade da partida, Eurico foi inclemente com quem procurava socorrer os feridos, tentando esvaziar o campo e os torcedores o mais rapidamente possível para que a partida recomeçasse. Toda a sua desumanidade foi exposta nesse lamentável episódio.

Responde ainda a diversos inquéritos e ações judiciais e foi, inclusive, impedido pelo Tribunal Eleitoral de disputar as eleições para vereador no Rio de Janeiro em 2008, por absoluta falta de idoneidade moral.

Estes são apenas alguns exemplos da folha corrida do dirigente vascaíno.

Suas práticas nefastas pareciam fazer parte do passado, uma vez que, quando perdeu as eleições para Roberto Dinamite, anunciou o encerramento de sua vida política no Vasco para se dedicar à família. Ledo engano. A péssima administração Dinamite retirou Eurico do ostracismo e deu nova vida ao inimigo número um do futebol brasileiro.

Ressuscitado, aliou-se a seu antigo cupincha, Rubens Lopes, o presidente da FERJ, para transformar o futebol do Rio novamente num feudo de interesses escusos e práticas sorrateiras, que já se imaginavam enterradas há anos. Primeiro, planejaram, em conluio, a violação contratual entre o Consórcio Maracanã e o Fluminense – leia sobre o assunto em http://avanteflu.blogspot.com.br/2014/12/pacta-sunt-servanda.html - para que a torcida vascaína, ao arrepio do direito posto, voltasse a ocupar o lado direito das cabines de rádio nas partidas contra o Flu. Ante a irredutibilidade do lado de cá, a FERJ determinou a transferência do jogo em que o Tricolor detém o mando de campo contra o Vasco para o Engenhão. Agora, o imbróglio é atinente ao preço dos ingressos, cujos valores foram fixados pela Federação, com apoio integral do Pança, em detrimento de Flamengo e Fluminense, que possuem contrato com o Maracanã e projetos concretos de sócio-torcedores e, para os quais, a imposição dos valores dos ingressos acarretaria imenso prejuízo.

Não é este o estilo de dirigente que desejo para o meu clube. E não há que se confundir pulso forte, voz ativa, influência de bastidores e defesa intransigente dos interesses da instituição clubística com a figura abjeta de Eurico Miranda. Se é isto que desejamos, são virtudes que não estão no famigerado cartola, uma vez que todo esse seu lado ufanista nada mais é do que uma criação para encobrir a sua verdadeira intenção: angariar os frutos das conquistas vascaínas, seja a que preço for. O gerente de uma concessionária de veículos é, hoje, um homem milionário, graças ao que retirou do Vasco. E nem mesmo os títulos que conquistou, com bastante ajuda de sua influência nos bastidores do futebol nacional, são suficientes para apagar os males que fez ao clube cruzmaltino, à sua torcida e ao esporte no Brasil.

Todo torcedor de bem, todo aquele que preza a honradez e a lisura no futebol, deve se unir para impedir esse retrocesso e lutar pela prevalência do direito e da moralidade. A nossa luta, assim, deve ser pela dignidade dos homens que o comandam e, nessa seara, não há lugar para gente como Eurico Miranda.

Fonte:

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-19/vultos-do-futebol/eurico-

http://balipodo.com.br/?p=1911


http://veja.abril.com.br/100101/p_042.html


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O fair play financeiro dos clubes de futebol

(Publicado no site Panorama Tricolor em 11.01.2015)

A CBF, através do artigo 105, do Regulamento Geral das Competições, anunciou, no mês de dezembro, a criação de normas do fair play financeiro e trabalhista que estabelecem requisitos e responsabilidades visando ao saneamento fiscal e financeiro dos clubes, sob pena de aplicação de penalidades desportivas. As normas específicas serão publicadas nos regulamentos de cada competição ou através de resoluções da própria CBF.

O que isso significa na prática? Significa que do jeito que está não dá para ficar. E como está? Clubes endividados continuam se endividando irresponsavelmente, contratando sem poder, gastando sem limites e, consequentemente, deixando de arcar, principalmente, com suas obrigações tributárias e trabalhistas, principalmente. Aliás, o débito tributário é a maior fatia do endividamento dos clubes.

As ligas esportivas profissionais americanas e a UEFA (Union of European Football Associations), a fim de controlar essa gastança desenfreada, a responsabilidade, a transparência e o controle na gestão dos clubes, adotaram o fair play financeiro nas competições que organizam. Baseia-se numa fórmula simples que é a de que não se deve gastar mais do que se arrecada, sob pena de aplicação de penalidades administrativas no âmbito esportivo, que vão desde uma simples multa até a proibição de se participar de competições organizadas pelas referidas entidades.

Antes de adentrar, especificamente, na seara nacional, vale conhecer um pouco do que acontece na Europa, onde o sistema está implantado oficialmente desde 2011.

O FFP (financial fair play) foi adotado pela UEFA, seguindo o modelo das ligas norte-americanas de esportes profissionais, com o objetivo de melhorar a saúde financeira do futebol europeu de clubes. Basicamente, os clubes que se qualificam dentro de campo para as competições da UEFA têm de se qualificar também fora dele, demonstrando que não possuem dívidas em atraso em relação a outras agremiações, jogadores, segurança social e ao Fisco (dívidas fiscais) e que estão com as suas contas em dia, respeitando uma gestão equilibrada nos negócios, ou seja, que não gastam mais do que arrecadam, o chamado break-even, expressão utilizada em economia e finanças para designar o ponto a partir do qual uma empresa deixa de perder dinheiro e passa a ganhar e equilibrar o capital investido.

Para que o controle seja efetivo, a fiscalização dos clubes europeus se dá por um comitê financeiro que analisa as suas contas nos últimos três anos, estipulando um limite de gastos por período de avaliação – a partir de 2015 o valor será de 30 milhões de euros anuais com uma margem para que seja extrapolado em no máximo 5 milhões de euros o que recebem como fontes de receita.

Atendidos esses pré-requisitos, os clubes estarão aptos às disputas organizadas pela associação europeia. Não atendidos, estarão sujeitos às seguintes sanções: i)  advertência; ii) repreensão; iii) multa;
iv) dedução de pontos;
v) retenção das receitas de uma competição da UEFA; vi) proibição de inscrição de novos jogadores nas competições da UEFA;
vii) restrição ao número de jogadores que um clube pode inscrever para a participação em competições da UEFA, incluindo um limite financeiro sobre o custo total das despesas com salários dos jogadores inscritos na lista principal para a participação nas competições europeias; viii) desqualificação das competições a decorrer e/ou exclusão de futuras competições; ix) Retirada de um título ou prêmio.

A medida saneadora pode parecer, à primeira vista, a fórmula perfeita para a salvação financeira dos clubes e do próprio futebol mundial. Alguns clubes europeus, por exemplo, foram suspensos pela UEFA por não cumprirem o fair play financeiro imposto pela entidade. Assim, por exemplo, recentemente receberam a sanção o Bursaspor, da Turquia, o Ekranas, da Lituânia, além de Cluj e Astra Giurgiu, da Romênia, que não poderão participar das Ligas dos Campeões e Europa, incluindo as suas fases de classificação. Outros, também, foram severamente multados, como o Manchester City e o Paris Saint-Germain; multas elevadíssimas, de 60 milhões de euros para cada clube, que, por certo, não agradaram aos seus gestores. Blackburn Rovers, Leeds United e Nottingham Forest não poderão contratar jogadores na próxima janela de transferências da Europa, em janeiro, pois também violaram as regras de fair play financeiro.

Os exemplos de sanções são muitos e somente o tempo dirá se todas serão efetivamente cumpridas.

Por outro lado, o próprio PSG já encontrou uma saída para burlar a fiscalização de suas contas.  Gastou até os seus limites – impostos pela UEFA - ao trazer David Luiz por € 53 milhões. Mas não parou de contratar, a fim de satisfazer a sanha consumista e megalomaníaca de seu dono, o sheik Nasser Al-Khelaïfi. Anunciou, assim, a chegada de Serge Aurier, lateral que se destacou na Copa do Mundo pela Costa do Marfim. O seu preço, porém, era de € 9,5 milhões, o que extrapolaria os limites de sua cota de gastos para o ano de 2014. Para contratar o jogador, despendendo mais do que deveria, realizou negócio jurídico de empréstimo pelo período de um ano, ficando acertado em contrato que seu repasse definitivo ao clube parisiense seria obrigatório após o decurso daquele prazo. Ou seja, pelo valor do empréstimo paga-se consideravelmente menos, adequando-se, assim, ao teto estabelecido pelo fair play financeiro, transferindo-se o preço efetivo pelos direitos para o ano seguinte, já sob a égide de uma margem agora compatível com as suas necessidades, uma vez que a contratação “dispendiosa” (David Luiz) fora realizada no ano anterior. Não há, em princípio, nada de ilícito nessa postergação negocial, o que pode vir a ser uma válvula de escape para o desrespeito ao fair play aqui no Brasil também.

A medida “perfeita”, assim, pode ter suas brechas e outras podem surgir quando efetivamente implementada em solo tupiniquim, até porque nisso somos mestres. Apesar de ser uma ação aparentemente bem intencionada, não está encontrando a receptividade que se esperava em solos europeus, pelo menos por parte dos dirigentes dos clubes; afinal de contas, ninguém gosta de ser punido, de sofrer pesadas multas e ser cobrado politicamente pela formação de equipes modestas que não renderão o esperado nas competições europeias em virtude das limitações da medida, mesmo que o propósito seja a salvação de suas instituições e até do próprio futebol.

O blogueiro Emerson Gonçalves, do “Olhar Crônico Esportivo”, ao analisar os resultados de uma pesquisa realizada sobre a repercussão do fair play esportivo no futebol inglês, corrobora o entendimento de que o desejo, às vezes mais do que a necessidade, dos gestores dos grandes clubes europeus – sheiks, milionários russos, dentre outros, - de esbanjar para conquistar, contribui para o desequilíbrio financeiro das equipes. Assevera que: “Entre os muitos fatores que contribuem para aumentar a instabilidade e o risco econômico dos clubes está a dependência do proprietário ou de um pequeno número de acionistas, interessados sempre em conseguir sucesso no campo (e resultados financeiros, na essência) no curto prazo”. Segundo o mesmo blog, 65% dos clubes da Premier League são dependentes dos principais acionistas. Conclui-se, sem dificuldade, que acionistas e proprietários milionários, para quem o “céu é o limite”, não se submeterão facilmente às regras de limitação financeira de gastos, mormente quando, sobre essa gente sempre paira a desconfiança de que a enxurrada de dinheiro investido sirva para dissimular negócios escusos – a famigerada lavagem de dinheiro.

Há outras implicações, suscitadas por especialistas do velho continente, que lançam sobre o fair play financeiro a pecha da ilegalidade.  E este pode ser o caminho para a derrubada do FFP na Europa. Um dos maiores especialistas em direito esportivo europeu, o advogado Jean-Louis Dupont – cuja interferência judicial foi responsável pela criação da Lei Bosman, que derrubou a Lei do Passe em solo europeu na década de 1990 – é um dos principais opositores do projeto e já afirmou que “a regra de igualdade de gastos não irá ajudar na estabilidade dos clubes a longo prazo. O único objetivo que será alcançado é que irá congelar a estrutura existente de mercado, o que significa que os grandes clubes permanecerão grandes. Como você pode dizer que isso é bom para o futebol? Simplesmente vai engesssar o sistema.” Markus Sass, da Universidade de Magdeburg, na mesma linha, afirma que: “Como clubes menores não são autorizados a gastar mais e, assim, investir em um modo de aumentar o seu tamanho de mercado no futuro, o modelo prevê uma tendência negativa no equilíbrio competitivo.” Alinham-se aos dois Paul Madden, da Universidade de Manchester, Rob Simmons, da Universidade de Lancaster e outros especialistas em direito esportivo, para quem em que pese o valor da intenção, a regra do fairplay financeiro pode criar um problema maior de competitividade, impedindo o livre comércio, uma premissa básica da liberdade econômica da União Europeia e dos acordos comerciais entre os países.

Importante frisar que, para esses estudiosos, não haveria justiça desportiva e legalidade no controle dos gastos dos clubes pela UEFA, uma vez que os atletas teriam um mercado menor para atuar e os seus salários seriam diminuídos em razão da adequação aos limites fixados pelas normas do fair play. Deve-se, nessa toada, identificar a diminuição da circulação de atletas – restrição negocial em razão de um mercado enxuto – como uma barreira ao livre comércio. Aqui no Brasil o mesmo argumento poderia ser aduzido através de questionamentos judiciais por ofensa ao artigo 170, parágrafo único da Constituição da Republica, que também garante o livre exercício de qualquer atividade econômica, o que, inevitavelmente, traria obstáculos ao implemento das punições aos clubes de futebol, inviabilizando as competições em decorrência da interposição de incontáveis medidas judiciais.

A própria UEFA – leia-se Michel Platini – já se manifestou no sentido de que a regra é restritiva e vai contra o espírito da competição, mas seria a opção “menos pior” comparada ao risco de “quebradeira” dos clubes.

Mudando o foco para o Brasil, seria possível que essa opção “menos pior” funcionasse por aqui? Na Europa, as famigeradas “brechas” já foram criadas – vide PSG – e outros clubes, como o Manchester City, procuram o Judiciário para evitar a aplicação de pesadas multas, como aquela de 60 milhões de euros aplicada por descumprimento do fair play financeiro.

O Bom Senso F.C., os representantes dos Clubes e a CBF já se reuniram e acordaram um modelo de fair play similar ao europeu em obrigações e sanções – adequando-o à realidade nacional para incluir o atraso ou não pagamento dos direitos de imagem, a possibilidade de rebaixamento, a aplicação da pena somente nas competições seguintes (não haveria a perda de pontos), a fim de não inviabilizar através de medidas judiciais a competição em andamento e a impossibilidade de reeleição dos dirigentes responsáveis.  Os clubes também não poderiam antecipar receitas para a contratação de jogadores, apenas para custear dívidas com a construção de centros de treinamento e estádios. Seria criado, ainda, um órgão regulatório para fiscalizar a atuação financeira dos clubes formado por dois conselhos. O primeiro, integrado por representantes dos jogadores, treinadores, árbitros, patrocinadores, clubes e da própria CBF; o segundo, por especialistas da área.

Frise-se que a proposta acordada pelo Bom Senso com a CBF e os clubes deverá ser integralmente acolhida pela confederação nacional nos regulamentos de suas competições. No entanto, o maior credor dos clubes, o Estado, também planeja incluir no Projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal (LRFE) regras de responsabilização dos clubes e seus dirigentes. Resta saber se não haverá incompatibilidade entre ambas, porque se houver, prevalecerá sempre a lei que, por certo, será promulgada depois de emendas e lobbys promovidos por grupos parlamentares que defendem interesses outros que não o da moralização do futebol brasileiro, o que é um risco.

O certo é que o fair play financeiro, como estatuído no artigo 105 do Rgulamento Geral das Competições da CBF, estará em vigor, ainda que administrativamente, já para as competições nacionais de 2015.

Estamos, porém, prontos para recebê-lo como a solução para a irresponsabilidade e incompetência de nossos dirigentes?

O jornalista Luiz Augusto Veloso publicou, no Jornal O Globo de 28 de dezembro de 2014, texto intitulado “Fair play financeiro no futebol já!” em que reconhece o instituo, nos moldes do aplicado pela UEFA e ligas americanas, como medida necessária e suficiente para uma mudança radical e profunda na forma como os clubes são administrados, porque “nada mobiliza e aflige tanto os dirigentes de futebol como os resultados esportivos de sua equipe (...) A impulsividade, a irresponsabilidade ou a incompetência doerão na carne, naquilo que é mais sagrado no esporte: vencer ou perder.”

Eu não seria tão veemente quanto o nobre jornalista, cuja opinião respeito e até compreendo, todavia com sensíveis ressalvas. Honrar compromissos deveria ser a regra e não a exceção, não apenas no futebol, mas em qualquer relação social. Providências realmente devem ser adotadas para que o esporte sobreviva às insanidades financeiras promovidas por muitos de seus gestores. Não será, entretanto, a partir de regulamentações bem-intencionadas, mas sem efetividade, que o break-even será atingido. Para que o fairplay financeiro seja compreendido pelos mandatários do futebol como uma medida saneadora dos clubes e que visa à preservação da própria existência do esporte, não basta importá-lo e aplicá-lo à nossa realidade pura e simplesmente.

O que “dói na carne” do “cartola”, ao contrário do que afirma o ilustre jornalista, não é o perder ou vencer; é, ao contrário, o seu bolso ou a sua liberdade. É isso o que “mobiliza e aflige os dirigentes esportivos”. Os resultados da equipe, perdas de pontos, desclassificações, rebaixamentos atingem diretamente o clube de futebol e o que ele tem de mais sagrado, que é o seu torcedor, seu maior patrimônio, e apenas indiretamente os seus dirigentes. Portanto, se o fair play não vier acompanhado de medidas que os responsabilizem civil e criminalmente, nada efetivamente mudará.

Apenas a título de exemplo, com o que estariam preocupados o senhor Manuel da Lupa e outros integrantes da cúpula da Portuguesa de Desportos envolvidos no escândalo da venda de vaga na série A? Com a possibilidade de o seu clube ser punido com perda de pontos, rebaixamento? Claro que não. Quando venderam a vaga estavam preocupados apenas com seus próprios bolsos e se locupletaram às custas do patrimònio e até da própria futura existência da instituição paulistana. E é isso o que ocorre, em maior ou menor escala nos clubes brasileiros. Os dirigentes que malversam as verbas sob suas responsabilidades, que não honram compromissos, que agem com má-fé, em regra, põem seus interesses e ambições pessoais acima das dos clubes que comandam. Seja por dinheiro, seja por interesse político, o clube, via de regra, não está em primeiro lugar. Punir somente o clube, multar somente o clube é punir o seu torcedor, porque se os mandatários realmente fossem administradores responsáveis, sentiriam a dor das punições a eles (clubes) infligidas e, provavelmente, não haveria motivos para que se criasse um fair play financeiro.

Tais medidas, entretanto, não poderiam ser veiculadas em regulamentos administrativos; portanto, nem a FIFA nem a CBF poderiam estipulá-las. Somente a União, através do devido processo legislativo, poderá editar disposições legais que imponham responsabilizações civis e penais sobre dirigentes esportivos.

Para que possa corrigir uma cultura de dilapidação do patrimônio das entidades futebolísticas brasileiras, a proposta da CBF deve alcançar as brechas legais para que não se torne inócua e alvo de inúmeras ações judiciais, além de levar em consideração outras situações que devem ser apreciadas no momento do cumprimento dos ajustes financeiros firmados, como a culpa exclusiva de terceiro. Nem sempre, e não se deseja aqui excluir a responsabilidade dos gestores, a malversação das verbas decorre de irresponsabilidade ou incompetência dos atuais mandatários. As dívidas atuais e que, não raro, impedem o adimplemento dos compromissos financeiros dos clubes, foram forjadas há décadas e são heranças malditas de muitos dirigentes de outrora que também agiam,  como outros tantos hoje, sem qualquer controle e compromisso, dilapidando o patrimônio de suas instituições.

Ademais, como aconteceu há não muito tempo com o Fluminense Football Club, a atuação discricionária, no caso até arbitrária, da Administração Pública Fiscal, impediu a renegociação das suas dívidas fiscais, sufocando-o financeiramente a ponto de não poder honrar diversos compromissos, inclusive salariais. Admitiu, porém, violando expressamente o princípio da igualdade, a concessão do benefício a outras agremiações em idêntica situação fiscal.

N’outro ponto, importante fixar o alcance do conceito de arrecadação, necessário para se estabelecer os limites do que se pode gastar. Um conceito aberto, vago, possivelmente gerará dúvidas que inviabilizarão a aplicação das sanções e ensejará ações e recursos judiciais ou novas formas de burla, como admite o âncora de esportes da CNN International, Pedro Pinto: “No fim das contas, os grandes clubes são como grandes marcas e sempre encontrarão uma maneira de fazer dinheiro, seja através de um contrato de patrocínio, uma turnê antes da temporada ou investimentos de novos parceiros, as opções estão aí para serem exploradas.”.

Estas situações pontuais precisam ser analisadas caso a caso a fim de que o fair play seja um instrumento de salvação financeira dos clubes de futebol. Aplicá-lo sem as devidas correções e adequações ao futebol nacional pode constituir-se em instrumento de injustiça e desigualdade. Deverá, assim, ser menos um instrumento sancionatório dos clubes e, por via de consequência, de suas torcidas, do que dos dirigentes inescrupulosos. A aptidão para se corrigir anos e anos de uma cultura irresponsável de gestão administrativa no futebol dependerá da efetividade do cumprimento das penas e de seu direcionamento também e, principalmente, ao mau gestor, que deverá ser responsabilizado civilmente, através de seu próprio patrimônio, e criminalmente, cumprindo pena pelos crimes de gestão temerária, apropriação indébita, fraude à execução, estelionato, dentre outras tipificações legais, porventura adequadas ao caso concreto.

Sem a adoção dessas medidas por parte da CBF e do Estado – não impor barreiras ao livre comércio, estabelecer conceito claro de arrecadação, analisar a responsabilidade exclusiva de terceiros no descumprimento das metas, responsabilização civil e criminal dos gestores etc -, cada um no âmbito de suas atribuições, supletivamente ao que já existe na Europa e se pretende fazer cumprir aqui, qualquer movimento pela moralização do futebol será incompleto e, portanto, inócuo.

A partir disso poderemos pensar, verdadeiramente, numa nova forma de administrar os rumos do esporte, com responsabilidade, eficiência, controle e compromisso. Este é o verdadeiro  espírito do fair play financeiro. Enquanto isso, contudo, clubes e seus torcedores pagarão pela desídia de seus maus gestores.

Fontes:










http://globoesporte.globo.com/platb/olharcronicoesportivo/category/ffp-financial-fair-play/



quinta-feira, 6 de março de 2014

Bananas Para os Racistas!

O racismo é um dos piores males da humanidade, uma das maiores ofensas à dignidade do ser humano.

E por mais que nos cansemos de repetir o quão abjeta é essa conduta, cada vez mais elas se repetem.

Agora a vítima da vez foi o árbitro Márcio Chagas da Silva que, após a partida entre Esportivo/RS e Veranópolis/RS, na noite de ontem, teve seu carro depredado, tendo sido, também, atiradas bananas sobre o veículo, inclusive dentro do seu cano de descarga.

Foi corajoso, superou a dor da ofensa e publicou o ocorrido na súmula da partida, nas redes sociais e denunciou o crime às autoridades locais.

Segundo o árbitro, o crime foi praticado por torcedores do Esportivo, clube que, inclusive, venceu a partida.

Os responsáveis por essa violência devem ser punidos exemplarmente, porque cometeram crime inafiançável, que atenta contra a dignidade humana. E o clube também deve ser sancionado, porque é a forma mais efetiva de se evitar que episódios nefastos como este se repitam, ao menos no âmbito do Futebol.

Quem merece bananas e, todos os rigores da lei, são os racistas.

Avante, Fluminense! ST.


http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/esportes/gauchao/noticia/2014/03/arbitro-marcio-chagas-da-silva-afirma-ter-sido-vitima-de-racismo-em-bento-e-tem-bananas-atiradas-contra-seu-carro-4438154.html

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Chip e a Bola

Normalmente não é preciso muito mais do que uma tragédia para que se mude o que já deveria ter sido mudado. É a catástrofe o fato gerador dos brados indignados que ecoam nos gabinetes de quem deveria, mas não agiu, e que agora age sobre o fato consumado.
 
É assim na vida social, política, cultural e até esportiva, menos no futebol.
 
A entidade que detêm o seu controle no mundo, contudo, recalcitra em aplicar ao esporte bretão a modernidade que já inseriu a tecnologia em diversas outras modalidades esportivas. A regra é afastar qualquer interferência externa que possa influenciar o resultado do jogo, mesmo que essa ingerência venha fazer justiça ao prejudicado pela decisão equivocada da arbitragem.
 
Julga-se, assim, preservar o romantismo, o subjetivismo e a emoção da disputa em detrimento da imagem congelada, do replay de um lance e até do chip na bola.
 
A catástrofe mencionada no primeiro parágrafo é, guardadas as devidas proporções, a mesma que se impõe a uma equipe que, por exemplo, teve um gol legítimo invalidado porque o árbitro não percebeu que a bola chutada ao gol adversário efetivamente atravessou a linha da meta, acarretando-lhe, por vezes, uma derrota injusta.
 
Nem os reiterados episódios em que a arbitragem anula gols legítimos quando, na verdade, as bolas ultrapassaram a linha da meta adversária, ainda que por centímetros, impulsionam as autoridades responsáveis pelo nosso futebol na direção do emprego da tecnologia para afastar a dúvida e fazer justiça dentro de campo.
 
É certo, porém, que nem tudo deve ser levado a ferro e fogo. A tecnologia do chip na bola a fim de confirmar ou não um gol é válida, mas a atuação humana também deve ser.
 
A tecnologia deve ser aplicada quando o olho humano falhar, de forma subsidiária. Imagine-se um caso em que ficou evidente que a bola cruzou a linha de meta, mas o chip nela implantado, por uma falha qualquer, não indicou a ultrapassagem. O que valeria? A tecnologia do chip que não indicou o gol ou a sensibilidade do árbitro que, acertadamente, visualizou a bola atrás da linha do gol e marcou o tento?
 
O chip será bem-vindo, mas sem que se desconsidere a participação imprescindível da arbitragem. A desumanização do esporte, com o afastamento absoluto da subjetividade do árbitro, desnaturaria o futebol, como apregoa a FIFA; a aplicação isolada da tecnologia, por sua vez, não resolveria todos os problemas do campo de jogo.
 
O meio termo é a medida adequada.
 
E nem se deve argumentar a desnecessidade do assistente que fica postado próximo à baliza em virtude do lance ocorrido na recente partida entre flamengo e Vasco, oportunidade em que o auxiliar, mesmo a pouquíssimos metros do lance, deixou de comunicar ao árbitro o gol legítimo da equipe cruzmaltina.
 
Era lance de olho nu, cuja eventual indicação do chip seria mera confirmação daquilo que foi visto por todos, menos pelo assistente. Com o chip ou sem ele, não haveria, como não houve, qualquer dúvida da ocorrência do gol que a arbitragem não assinalou porque não quis.
 
O parceiro humano da tecnologia é que deve ser honesto, sob pena de qualquer inovação aplicada ao futebol tornar-se medida inócua.
 
Avante, Fluminense! ST.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Fluminense, Desde o Início um Clube para Todos.

Bem apropriada a mensagem que o presidente Peter Siemsen postou em sua página oficial na rede social facebook.
 
Como porta-voz oficial do Fluminense, dele se espera a presteza necessária em defender nossos interesses, presteza esta que esteve ausente em diversas situações por que passamos nos últimos tempos.
 
Mas, agora, parece que o Presidente será mais assíduo nas redes sociais e, principalmente, mais assíduo na defesa do Fluminense e de sua torcida.
 
Quanto à sua postagem, veio à público esclarecer uma verdade que estava escondida sob os entulhos da farsa montada durante um século pelos detratores do Fluminense, sempre em conluio com a imprensa que se presta às inverdades e à desfaçatez ao invés da ética e da imparcialidade.
 
Fomos um clube que sempre acolheu jogadores independetemente de sua raça ou classe social. A foto, de 1910, mostra o time de aspirantes do Flu com jogadores descendentes de ingleses, portugueses, mestiços de brancos e negros e cafuzos.
 
Portanto, trata-se de lenda, mentira, ou seja lá o que for, que o Fluminense foi um clube racista nos seus primórdios, chegando a proibir que jogadores negros integrassem seus quadros.
 
Duvido que essa mesma imprensa que acolheu a tese estapafúrdia de que o Flu era um clube racista, tenha a ombridade de reconhecer que não foi bem assim. O Fluminense sempre foi um clube para todos, desde o seu início.
 
E não poderia ser diferente. A ascendência inglesa dos nossos primeiros fundadores e jogadores fizeram do Flu um clube de vanguarda, alinhado com as principais ideias que circulavam na Europa em fins do século XIX e início do século XX, dentre elas a necessidade do banimento da escravidão e o reconhecimento dos direitos dos negros.
 
Com essa mentalidade, o Flu poderia ser tudo, menos racista.
 
Avante, Fluminense! ST.

Carta à ESPN

Ilustríssimo Senhor Presidente da ESPN Internacional,
 
Como assinantes do canal a cabo ESPN BRASIL, pertencente a este grupo, vimos informar-lhe acerca de graves fatos ocorridos durante o último mês de dezembro de 2013 e janeiro de 2014.
 
Alguns apresentadores/comentaristas esportivos de futebol dessa emissora (ESPN BRASIL), podendo-se elencar os senhores Antero Greco, Mauro Cézar Pereira e Márcio Guedes, de forma leviana e irresponsável, vêm, reiteradamente, vinculando o nome do clube de futebol profissional brasileiro, FLUMINENSE FOOTBALL CLUB, a manobras antidesportivas ocorridas nos anos 1990 e, recentemente, por ocasião do julgamento de outras duas agremiações futebolísticas por irregularidades que afrontaram a regra da última competição do futebol nacional.
 
Como se sabe, o canal ESPN BRASIL é referência do desporto nacional, constituindo-se importante veículo de comunicação e formador de opinião no âmbito do esporte brasileiro, notadamente o futebol.
 
Os senhores funcionários do canal acima indicados, assim, transmitem ao público assinante opiniões baseadas em preceitos sabidamente inveridicos de que o clube de futebol FLUMINENSE FOOTBALL CLUB estaria envolvido em episódios de manipulações indevidas das regras das competições futebolísticas, episódios esses conhecidos vulgarmente por termos pejorativos, como "tapetão" ou "virada de mesa".
 
Tais afirmações são lançadas ao público de forma leviana, pois é fato notório que o Fluminense Football Club jamais articulou qualquer manobra, de forma direta ou indireta, que o impedisse de cumprir as determinações gerais das competições, especialmente quanto ao descenso em razão de critérios técnicos pré-estabelecidos.
 
Essas informações também apresentam evidente viés de irresponsabilidade, uma vez que induzem a opinião pública majoritária a acreditar que o Fluminense Football Club é contumaz em práticas escusas dessa natureza, transformando-o, injustamente, em verdadeiro vilão do futebol brasileiro.
 
As inverdades propagadas por esses profissionais de imprensa maculam a imagem do citado clube nacional e internacionalmente e, inclusive, provocam, por parte de torcedores rivais, reações de violência física e moral contra os fãs do Fluminense Football Club pelas ruas das cidades brasileiras, fato este amplamente divulgado pela imprensa especializada nacional.
 
Assim, a fim de defender o centenário nome da instituição Fluminense Football de Club, preservando-o de acusações infundadas, inverídicas e irresponsáveis, bem como a integridade física e moral de seus fãs em todo o Brasil, os abaixo assinados, torcedores do Fluminense Football Club e assinantes do Canal por assinatura ESPN Brasil, vêm solicitar a Vossa Senhoria que os profissionais acima indicados se abstenham de vincular o nome Fluminense a qualquer termo pejorativo indicativo de manobras escusas no futebol brasileiro, bem como a relacioná-lo a qualquer atividade direta ou indireta de manipulação das regras pré-estipuladas das competições desportivas das quais participou.
 
Em inglês: (Texto traduzido pelo amigo tricolor Fábio Costa e Silva)
 
Honorable President of ESPN International,
 
As subscribers of cable channel ESPN BRAZIL which belongs to that group , we inform you about serious events during the month of December 2013 and January 2014.
 
Some sports presenters / commentators who work for the ESPN group ( ESPN BRAZIL ), we can mention the following people Antero Greco, Mauro Cézar Pereira e Márcio Guedes, so frivolous and irresponsibly, have repeatedly been linking the name of the Brazilian professional football club, Fluminense Football Club, to illegal maneuvers occurred in the 1990s and, recently, on the occasion of the trial of two other football associations for irregularities that go against the rule of the last competition of national football.
 
As it’s wide known, ESPN BRAZIL is an important reference in the national sport, and, mainly, important means of communication and opinion in sports in Brazil, especially football. So, the staff of the channel mentioned above, transmit, to the public subscriber, opinions based on knowingly untrue precepts that the soccer club Fluminense Football Club would be involved in episodes of tampering rules of soccer competitions, commonly known by episodes such pejorative terms, as "off the field actions" or "a decision from the bench ".
 
Such statements are released to the public in a wrong and malicious form as it is a notorious fact that Fluminense Football Club has never articulated any operation, directly or indirectly, to prevent it from obeying the general determinations of competitions, especially when it comes to the relegation and all criteria have been fullfilled by the club.
 
These pieces of information also show evident irresponsibility, since they induce the majority of the public opinion to believe that Fluminense Football Club behaves this bad way over and over again, transforming it, unfairly, in the true villain of the Brazilian football . The lies propagated by these media professionals tarnish the image of the club nationally and internationally, and have been even causing, by rival fans, reactions of physical and moral violence against fans of Fluminense Football Club through the streets across many Brazilian cities, a fact widely reported by the national press.
 
Thus, in order to defend the centenary institution name Fluminense Football Club, preserving it from unfounded, untrue and irresponsible accusations as well as the physical and moral integrity of its fans throughout Brazil, the undersigned Fluminense Football Club fans and subscribers of ESPN BRASIL cable channel, come to ask you that the professionals listed above refrain from linking the name Fluminense any pejorative term linked to schemes in Brazilian football, as well as relate it to any direct or indirect manipulation of the activity of pre-stated rules of competitions sports that the CLUB participated.