Mostrando postagens com marcador brazil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador brazil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Somos todos Fluminense?

Alguns torcedores se mobilizaram para realizar uma grande festa, a fim de receber o time na partida inaugural do campeonato brasileiro contra o Joinville.

Foi uma manifestação espontânea de torcedores apaixonados que entenderam que a situação atual do clube é difícil, política e financeiramente, e que somente com o apoio integral da torcida, o Fluminense pode almejar algo melhor nesta competição.

Também foi uma espécie de desagravo por tudo o que impuseram ao Tricolor no finado campeonato carioca, com o propósito de demonstrar à equipe que as atrocidades praticadas contra o Flu em virtude da sua posição de contrariedade aos desmandos da FERJ já faz parte do passado e que agora se inicia uma nova competição, sem – espera-se – a interferência nefasta de dirigentes inescrupulosos.

Os abnegados organizadores gastaram preciosos tempo e dinheiro para promover o evento, tudo por amor ao Fluminense e sem esperar nada dele.

Passada a rodada inicial, porém, a festa deve continuar. O movimento se ampliou, outros torcedores encamparam a ideia e agora se organizam para que os jogos do Fluminense em casa sejam sempre um grande evento, com o objetivo de que a torcida compareça e, além de ser o décimo segundo jogador da equipe, encha os combalidos cofres do clube do dinheiro que anda tão escasso por estes tempos.

O propósito é louvável e não poderia partir de outra torcida que não a tricolor.

Ocorre que o sucesso do evento depende do cumprimento de alguns pressupostos. O primeiro deles diz respeito ao torcedor, pois sem ele não há festa e o clube deixa de arrecadar.

A torcida tricolor precisa imbuir-se de que ela é a força motriz do Fluminense, pois é o seu canto que faz vibrar o jogador e é o seu maciço comparecimento o maior incentivo ao atleta dentro de campo. A presença do torcedor é sempre importante, mas em tempos de vacas magras, ela é fundamental.

Por isso, é preciso abandonar a tradição vetusta de que o torcedor somente apoia o time quando este está num bom momento. Hoje o tricolor vai ao estádio quando a equipe está bem, mas é preciso que ele entenda que deve ir para o time jogar bem. Além da contribuição financeira, a presença da torcida influencia no fator psicológico do jogador, incentivando-o a desempenhar um melhor futebol e a buscar a vitória com motivação redobrada.

O sucesso da empreitada também depende da ajuda do principal interessado, o Fluminense.

Como eu disse, foram abnegados torcedores que planejaram e organizaram a mobilização para a primeira partida do campeonato e que, agora, pretendem dar continuidade ao movimento de aproximar clube e torcida durante todo o restante da competição.

Não soube de qualquer interferência do clube no assunto, quando este deveria ter sido o principal interessado em trazer o torcedor para perto de si, colhendo os resultados financeiros desse apoio.

Mas o que esperar de um departamento de marketing inepto que, deitado em berço esplêndido, observa o árduo trabalho de torcedores que trabalham pelo Flu apenas por amor ao seu clube de coração. Por que não cria, por que não pensa e, sabedor de que a mobilização se articula no seio da torcida, por que não ajuda? A resposta é simples: porque não tem compromisso com o Fluminense, apesar de seus membros serem remunerados – e bem – pela instituição.

Eu imagino que o esforço do torcedor em atrair público para o Maracanã poderia atingir seu fim de uma forma bastante efetiva se o Fluminense, através de seu departamento de marketing, contribuísse para o sucesso da empreitada. Afinal, o interesse maior é o do clube, em dinheiro e motivação, para que o time alcance boas posições na tabela, o que, invariavelmente, também se reverte em lucros futuros.

As campanhas disseminadas pela internet teriam maior alcance se veiculadas pelos canais oficiais do Fluminense, e até mesmo pela grande mídia esportiva; além disso, promoções poderiam ser criadas para ajudar a levar o torcedor ao estádio, como o sorteio de prêmios atrativos.

Não seria nada irrazoável pensar em prêmios como automóveis e viagens pelo Brasil e exterior. Retira-se da parte da renda que cabe ao clube – inflada pela presença maciça da torcida – trinta ou quarenta mil reais, o que não é um absurdo e pode, inclusive, ser subsidiado pela empresa fornecedora do produto através da sua visibilidade, e se garante ao torcedor a possibilidade de voltar para casa duplamente feliz: por ter assistido ao seu time do coração e ganhado um excelente presente.

Infelizmente, contudo, a torcida age por si só, movida apenas pelo sentimento de amor, enquanto quem é pago para pensar e produzir para o clube permanece inerte, sob a complacência inexplicável de seus administradores.

Portanto, é bastante provável que o voluntarioso torcedor continue a sua luta inglória de tentar convencer a torcida a comparecer ao Maracanã durante o restante do campeonato, enquanto o Fluminense assiste a tudo de braços cruzados.

Não sei se é vaidade, ou simplesmente pura incompetência. O fato é, porém, que clube e torcida devem trilhar o mesmo rumo, sobretudo quando esse caminho leva a um único objetivo que é o engrandecimento do Fluminense.

A cúpula Tricolor precisa se livrar das travas que impedem o Fluminense de crescer, expurgar seus inimigos internos e atuar sem vaidades sempre em prol da Instituição. A torcida é a alma do Fluminense e sempre será a sua mais fiel parceira. E é esse mutualismo que deve nortear as ações institucionais entre torcedor e clube, porque sem a torcida ele será apenas um corpo sem espírito, um número de cadastro de pessoa jurídica ou um nome sem história.

Somos todos Fluminense? Parece que, infelizmente, essa regra tem exceção na Álvaro Chaves, 41.



segunda-feira, 27 de abril de 2015

Em defesa do Fluminense

Esta entressafra forçada, logo após a eliminação precoce na competição regional, é absolutamente tediosa, sobretudo porque ocorre fora de estação.

Naquela entre o fim do campeonato brasileiro e o início da temporada seguinte ainda se vive alguma excitação, porque é o momento das especulações e contratações. Nesta, há apenas a lamúria decorrente da desclassificação tramada pela máfia que comanda a federação de futebol carioca e a expectativa pelo desempenho do clube na principal competição nacional.

É o momento, contudo, que tem a alta administração do futebol Tricolor, para não deixar esmaecer o combate contra as atrocidades perpetradas contra o Fluminense, e por que não contra o próprio futebol, pelas figuras abjetas que, direta ou indiretamente, administram o esporte bretão no Rio de Janeiro.

Aquelas “notas-oficiais”, que cansamos de ler durante a malfadada competição local, devem tornar-se efetivas através de medidas práticas que visem ao ressarcimento material sofrido pelo Fluminense diante de todo o abuso de direito praticado pelo presidente da federação, bem como de um planejamento realista acerca da organização de uma liga independente no futebol do Rio para a temporada 2016.

Com essas medidas, a cúpula Tricolor demonstrará que as referidas notas não foram meras palavras vazias. É preciso combater os inimigos do Fluminense em todas as instâncias, dando-lhes cada vez menos oportunidades de nos fazer mal. Uma ação bem fundamentada contra o senhor Rubens Lopes em razão de todas as arbitrariedades cometidas servirá a dois propósitos: responsabilizá-lo judicialmente por atos típicos de abuso de direito, e portanto ilícitos – que não podem ser salvaguardados pela autonomia  constitucional da entidade jurídica FERJ – e fazer com que outros inimigos do Fluminense repensem suas atitudes antes de praticarem qualquer conduta deliberadamente prejudicial ao clube.

Desta forma o Fluminense estará combatendo alguns de seus inimigos externos, pelo menos os mais recentes.

Mas é o tempo, também, para se combater os internos, os quinta-colunas a que fiz referência no último texto publicado aqui no Panorama.

N’outras épocas, o Fluminense era pouquíssimo tolerante com quem infringisse normas morais de conduta. Atletas e funcionários deveriam pautar-se pela ética e boa-fé no trato interpessoal dentro e fora do clube.

Parece, porém, que a modernidade, nesse ponto, foi prejudicial ao Fluminense e a tolerância a condutas graves praticadas por seus funcionários alargou-se de forma incompreensível.

A ação judicial proposta por um empregado do clube contra o escritor Paulo Roberto Andel, que já é, por certo, de conhecimento de todos os que frequentam esta casa, é uma aberração jurídica que expõe a ganância, a má-fé e a insensibilidade do seu autor. Um verdadeiro crime de lesa-Fluminense, uma vez que é um atentado contra a sua história, além de ser uma ofensa ao direito constitucional da liberdade de expressão.

O autor da ação, que nem tricolor é, ao pedir o recolhimento e a destruição da obra de Paulo Andel, não apenas o constrange e vitimiza, mas ataca diretamente a instituição Fluminense Football Club, a sua história e a sua torcida. Para ele – o autor da ação -, trata-se apenas de um livro, de uma reprodução supostamente não autorizada de uma fotografia sua e de dinheiro, muito dinheiro. Para Andel e para todos nós, tricolores, trata-se de uma questão muito maior, de respeito à honra de um homem íntegro e da preservação da dignidade da instituição Fluminense.

A honra tricolor foi vilipendiada por um prestador de serviços do Clube e a reputação de um escritor, que dedica a sua vida a engrandecer nosso amor pelo Tricolor, foi maculada por uma ação temerária e fulcrada no interesse espúrio e na má-fé.

E o que o Fluminense tem com isso? Tudo.

É dever da administração Tricolor, leia-se Presidente Peter Siemsen, agir para proteger os seus interesses -  a história e a honra do Fluminense e a reputação de um escritor que vive a sua vida para defender e enaltecer o clube, sob pena de a sua inação torná-lo verdadeiro coautor da injusta ação perpetrada pelo fotógrafo.

O mínimo que se espera é o encerramento do vínculo contratual desse profissional, além de uma nota de repúdio à sua conduta e de desagravo ao escritor, vítima do mais grave e injusto constrangimento por parte de um funcionário do Fluminense.

O comando Tricolor, assim, precisa posicionar-se contra essa agressão, defender a instituição e, mais do que isso, expurgar de seus quadros seus inimigos internos, dentre eles o autor dessa estapafúrdia ação judicial, a fim de que não se inicie ou não se dê continuidade a um processo autofágico que poderá lhe trazer severas consequências futuramente.


Seguir adiante é preciso, não sem antes, porém, ajustar as contas com os fantasmas que nos atormentam no presente.

(Felipe Fleury)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O rigor da lei


Escrevi no site Panorama Tricolor, na semana anterior ao jogo entre Fluminense e Vasco, um texto sobre impunidade e violência no futebol, onde sugeri que um dos caminhos para se combater a violência que grassa entre as torcidas organizadas passa, primeiramente, por se afastar a impunidade através do “prender” e do “punir” o transgressor, aplicando-lhe a Lei com rigor.


Para se impedir medidas inócuas, como penas alternativas de proibição de frequentar estádios, dentre outras, seria preciso imputar ao integrante da organizada crimes “mais graves” que permitissem a sua prisão em flagrante, adequando-se o fato ao crime previsto na Lei. Foi exatamente isso o que fez a delegada titular da 24ª DP, quando autuou 119 membros de organizadas de Flu e Vasco, sendo 19 menores, pelos crimes de associação criminosa qualificada (pena de 1 ano e 6 meses e 4 anos e 6 meses de reclusão – art. 288 do CP) e promoção de tumulto no entorno do estádio (pena de 1 a 2 anos de reclusão e multa – art. 41 B, inciso I, da Lei 10671/2003, o Estatuto do Torcedor), títulos criminais que permitem a prisão flagrancial e a remessa do processo ao Ministério Público para dar início à ação penal, impedindo que os indiciados sejam postos imediatamente em liberdade após receberem levíssimas penas alternativas, como sói acontecer no âmbito dos Juizados Especiais.



Foi a maior prisão conjunta de que se tem notícia no âmbito dos confrontos entre torcidas organizadas. Em outras oportunidades, como por exemplo, em 2011, quando 102 torcedores de Vasco e Flamengo foram detidos em Niterói após confrontarem-se, ou quando 87 membros de torcidas de Flamengo e Atlético também se enfrentaram em 2014 e ainda recentemente, oportunidade em que mais de 40 integrantes da maior facção de torcida do Corinthians depredou vagão de metrô e agrediram quatro torcedores do São Paulo, todos foram conduzidos aos Juizados, prestaram depoimentos e foram liberados com penas brandas, se tanto.



O que se espera é que o exemplo seja seguido pelos órgãos de persecução em todo o território nacional para que integrantes de organizadas, daqui por diante, pensem duas vezes antes de agendar confrontos e praticar crimes, sabedores de que, se presos, receberão pesada reprimenda penal.



E que o rigor da lei recaia somente sobre os responsáveis pelos atos de violência, depois de um processo justo e com amplo direito de defesa, porque enquanto não transitada em julgado eventual sentença condenatória, todos devem ser considerados presumidamente inocentes.

@FFleury

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Impunidade e violência das torcidas organizadas

Ressalto, antes de prosseguir, que não sou contra as torcidas organizadas. Sou contra os bandidos que nelas se infiltram para agredir, matar e roubar sob o pálio do anonimato.

Episódios reiterados de violência entre bandidos infiltrados em torcidas organizadas têm inundado as páginas dos informativos esportivos e policiais neste início de temporada. Não que o fato seja novidade, mas da forma como começou o ano, é bem provável que a avalanche de terror e violência seja a maior dos últimos tempos.

Os grandes clássicos regionais e nacionais sempre foram excelentes chamarizes para confrontos entre marginais travestidos de torcedores; atualmente, porém, a brutalidade se aprimorou. Com as facilidades proporcionadas pelas redes sociais, a ansiedade pelos clássicos terminou. A sanha sanguinária desses vândalos pode ser satisfeita a qualquer hora, em qualquer esquina, nos trens ou metrôs, de segunda a sexta-feira, independentemente de jogo marcado.  

Via de regra, a explosão de ódio e intolerância é direcionada ao torcedor do clube rival, o inimigo em potencial. Mas nem sempre a vítima está do lado oposto da arquibancada. Já não é de hoje que torcedores do mesmo clube também se engalfinham. Em alguns casos, como já ocorreu com membros de organizadas de Flamengo e Vasco, por exemplo, tiveram de ser separados por cordões de policiais dentro do estádio. Torcedores organizados do Corínthians brigaram recentemente para garantir quem colocaria a sua faixa no pequeno espaço reservado na Arena do Palmeiras; os torcedores palmeirenses, por sua vez, se agrediram fora do estádio; fato idêntico ocorreu com torcedores do Bahia ano passado. Membros de uma torcida do Flamengo invadiram o vestiário do Macaé. Pilharam, lesionaram o goleiro da equipe adversária e voltaram impunemente para as arquibancadas.

A pancadaria atual é contra tudo e contra todos, não escolhe alvo e nem divisão. Não raro, torcedores de clubes menores também se digladiam contra seus rivais locais.

E mesmo os torcedores comuns, aqueles que nunca sonharam integrar uma facção de torcida, comumente têm sido atacados covardemente apenas por vestirem a camisa de seus clubes. Famílias são alijadas dos estádios de futebol, porque ir a qualquer um deles ultimamente tem sido uma atividade de risco. Sabe-se que vai, mas não se sabe se chega ou se volta.

Algumas torcidas organizadas funcionam como verdadeiras organizações criminosas, em cujas sedes se homiziam criminosos com vasta folha penal, guardam-se armas de fogo, drogas e outros instrumentos para prática de violência. Trata-se de um problema social grave que transcendeu as rixas futebolísticas e, não raro, envolve disputas entre facções criminosas relacionadas ao tráfico de drogas. E não se deve olvidar que dirigentes inescrupulosos financiam esses grupos, dando-lhes poder e dinheiro, a fim de manipulá-los politicamente. Muitos têm livre acesso aos clubes e gratuidade garantida nos estádios por uma enxurrada de ingressos doados pelos cartolas.

A solução é complexa e não pode ser dada em parcas linhas. Nem é minha pretensão fazê-lo. No entanto, parece claro que deva passar necessariamente por ações preventivas desenvolvidas pela inteligência policial para evitar confrontos previamente agendados – infiltrando agentes, interceptando mensagens, investigando redes sociais - e por uma ação repressiva, manejada pelo Judiciário através da decretação ou manutenção da prisão e da responsabilização penal dos agressores, afastando-se, assim, a impunidade. Soam casuísticas e oportunistas as propostas levantadas por autoridades que, a cada morte, a cada violência perpetrada por membros de organizadas, sob a luz dos holofotes, vêm a público dizer que é preciso criar leis, aumentar penas etc. As leis existem, as penas também. Falta efetivamente prender e punir.

Lembro-me de que há algum tempo integrantes de uma organizada tricolor foram presos após agredir e roubar torcedores vascaínos. Acompanhei o caso e constatei o rigor da Chefe de Polícia, do Ministério Púbico e do Judiciário. A maioria foi processada por formação de quadrilha e  alguns também por roubo, estes últimos condenados a penas elevadas. É assim que se deve agir. Contra todos. Permaneci atento ao noticiário e não tive mais notícias, apesar dos reiterados episódios de conflitos entre torcidas, de outra atuação conjunta Executivo-Judiciário tão eficaz.

Torcedores de Atlético-PR e Vasco que protagonizaram lamentáveis cenas de violência em Joinville, na última rodada do Brasileiro de 2013, estão soltos. Membros da Gaviões da Fiel que depredaram um vagão de metrô – patrimônio considerado público – e espancaram quatro torcedores do São Paulo há poucos dias pagaram fiança e estão na rua. Outros tantos autores de crimes envolvendo torcidas de clubes de futebol também continuam impunes. Isso não é problema de falta de Lei é problema da sua má aplicação. Grupos de torcidas organizadas presos cometendo atos de vandalismo ou agressões são organizações criminosas e, como tal, devem ser tratados. Some-se à pena pelo crime de associação criminosa a de roubo ou outro ilícito praticado, e os seus autores provavelmente receberão uma bela reprimenda penal.

Tratá-los de forma diferenciada, sujeitando-os às regras processuais de Juizados Criminais – que julgam crimes de menor potencial ofensivo, diferentemente das Varas Criminais, que processam e julgam crimes mais graves – somente fomentará nos autores o sentimento da impunidade, uma vez que sofrerão penas levíssimas, que vão desde o pagamento de cestas básicas até a proibição de frequentar partidas de seu clube, como se essa proibição fosse suficiente para impedir que provoquem o caos antes ou depois dos jogos, ou até mesmo quando não há jogo.

Nem a proibição da torcida, ou mesmo seu banimento, são medidas suficientes para impedir atos criminosos de seus integrantes. Afinal de contas, o vândalo age independentemente de estar uniformizado, e a torcida, como já se viu, muda de nome e volta faceira às arquibancadas.

A certeza da impunidade talvez não seja a causa desse grave problema, mas por certo é um dos motivos pelos quais a violência é reiteradamente praticada. Se o agressor sabe que não será punido, ou terá sua reprimenda abrandada ou substituída por “cestas básicas”, ele se sentirá motivado a tornar a delinquir. O eminente jurista Nelson Hungria ensinava que: “ao analisarmos as causas de todos os crimes, veremos que elas estão não na quantidade das penas, mas na impunidade deles.”. Para ele não se combatia a criminalidade aumentando as penas, mas punindo o fato criminoso de acordo com o ordenamento vigente. A impunidade provoca no âmago do criminoso o sentimento de que a sua conduta é de somenos importância para o Estado, e, portanto, que poderá reiterá-la porque nenhuma sanção eficaz sofrerá. Um dos delitos mais graves do Código Penal, por exemplo, é o latrocínio – matar para roubar -, mas nem por isso é menos praticado. O bandido não tem medo da pena abstrata prevista no código – aquela gravada no texto frio da Lei -, tem medo é de ser preso e ter que efetivamente cumpri-la.

Assim, o “prender” e o “punir” ainda são os meios mais efetivos na luta contra a impunidade.

Infelizmente, entretanto, nem sempre é assim que funciona. Pode parecer contraditório, mas direitos e garantias fundamentais, recursos processuais e benefícios legais, que existem para proteger o réu inocente de um processo injusto – “mais vale um criminoso absolvido do que um inocente condenado” – são fórmulas eficazes, nas mãos de bons advogados, para impedir a responsabilização penal dos transgressores da lei e da ordem.

E de antemão alerto que limitar benefícios e garantias fundamentais encontra óbice na própria Constituição Federal. Até mesmo o crime considerado hediondo, cuja gravidade justifica um certo limite à concessão de benefícios, já teve o seu rigor relativizado para admitir liberdade provisória, progressão mais benéfica de regime prisional e até mesmo substituição da pena de prisão por prestação de serviço comunitário, como no caso do tráfico de drogas.

Parece que estamos num beco sem saída, onde o melhor caminho ainda é a aplicação irrestrita da lei, mesmo sendo esta suscetível de variada interpretação e subterfúgios processuais que, por vezes, darão ao criminoso a oportunidade de escapar à responsabilização penal. Não se pode, contudo, dela abdicar, pois aí sim o autor do fato criminoso receberá verdadeiro salvo-conduto para continuar a perpetrar delitos.

Enquanto as autoridades discutem o que fazer, a violência explode em níveis alarmantes, vitimizando torcedores de bem. O torcedor é compulsoriamente alijado do seu maior prazer para a garantia de sua integridade física e até mesmo de sua vida e a de sua família. Já temos estádios com torcida única. Em breve, os jogos serão disputados sem torcida alguma.

Péssimo para todos nós que vivenciaram um dia a magnitude de um estádio lotado em dias de clássico, sem cordões de isolamento ou policiais que separassem as torcidas. Uma época em que a “violência” era a galhofa ao rival e vencedores e perdedores sempre saíam ganhando com as boas recordações do espetáculo.


Se nada for feito para impedir a ação desses baderneiros, o futebol estará condenado a um triste fim, transformando-se em mera atração televisiva, se tanto, sem o calor e a paixão do torcedor de bem, aquele que, verdadeiramente, faz do jogo um espetáculo.