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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Viver e vencer

Peço a permissão dos amigos para dividir a minha coluna de hoje em duas partes, uma delas em nada, mas em nada mesmo relacionada ao futebol. Infelizmente.

Escrevo esta coluna antes da partida do Fluminense contra a Chapecoense, apenas para que o texto, quando lido, seja inserido no contexto temporal adequado.

Perder propositalmente jogos contra equipes que disputam uma vaga fora do Z4 com o Vasco, apenas para prejudicar o rival carioca e decretar o seu descenso, não me passa pela cabeça.

Agir dessa forma seria atirar no lixo a própria dignidade, rebaixando-se ao mais vil dos comportamentos. Se já não há, no mundo que nos cerca, muitos exemplos de altivez de condutas, não seremos a colaborar para que a má-fé e a indignidade prevaleçam no futebol.

O jogo deve ser jogado dentro de campo, sem prévios acordos, sem manipulações. Fazer “corpo-mole”, assim, não deixa de ser uma forma de manipular o resultado de uma partida.

E o Fluminense, pela sua grandeza, pela sua história, deverá sempre buscar a vitória, mesmo que essa possa, de alguma forma, auxiliar o seu maior rival. É da natureza do clube, algo que não pode ser modificado.

Como salientado, porém, o Fluminense fará isso por ele mesmo e por sua rica e valorosa história. Não fará porque deveria “favores” ao Vasco. Bravata pura de dirigentes à beira do abismo que, desconhecendo a fidalguia tricolor, imaginam que o time poderia entrar para não vencer jogos que são fundamentais à sua permanência (dele Vasco) na primeira divisão.

São incautos, por certo. Ganhariam mais se tivessem permanecido em silêncio, pois, em primeiro lugar, o Fluminense nada deve a ninguém – Pagar o quê? está aí para ser lido e compartilhado – e, em segundo lugar, o Tricolor não se coaduna com negociatas escusas e outras parvoíces típicas de quem não nasceu em berço esplêndido.

Fluminense é sinônimo de boa-fé e dignidade, caso contrário não é Fluminense.

Assim, aos desavisados vascaínos que procuraram cobrar a inexistente dívida do Tricolor, que fique bem claro que o Fluminense pode não vencer Chapecoense e Avaí, afinal de contas, já passou por péssimos bocados neste campeonato, mas não faltará vontade de superá-los.

As bravatas de São Januário, portanto, não nos atingem. Trata-se de mera tentativa de transferência de responsabilidade por um ano pífio – e aí a prova de que o campeonato carioca foi arranjado – algo típico de vetustas figuras que já deveriam ter abandonado o futebol há tempos.

Façamos a nossa parte e que o Vasco faça a dele.

Agora a parte estranha ao futebol, mas que precisa ser lembrada, que precisa ser tocada como uma ferida dolorosa, para que a dor lancinante não deixe esquecer que a vida é um direito supremo, está acima das leis dos homens, e deve ser respeitada sempre.

Já me manifestei em mais de uma oportunidade aqui no Panorama Tricolor sobre aspectos criminais dessas condutas, por isso hoje falarei apenas sobre seu aspecto humano, ou melhor, desumano.

Não faço pré-julgamentos, nunca os fiz. Por isso, sem provas contundentes, não farei qualquer digressão sobre a atribuição de responsabilidades sobre o nefasto evento que vitimou de morte o torcedor vascaíno antes da partida entre Flu e Vasco no último domingo.

A culpa, na verdade, é da humanidade, que se definha, se diminui, se destrói a olhos vistos, e que nos dá sinal disso diariamente, desde as redes sociais até os noticiários internacionais.

O que difere um indivíduo que dá uma paulada na cabeça de um rival clubístico daquele que corta a cabeça de um descrente na sua religião? Os seus propósitos? Não. Na verdade, penso que nada os distingue. Ambos estão contaminados pelo vírus da desumanidade, do desamor, são ausentes de tudo. Guiam-se por sinais e grunhidos, protegem-se em bandos e atacam sem ter fome. Matam por matar.

A polícia mata, o bandido mata, o religioso radical mata, o marido traído mata, os inimigos se matam. Banalizou-se a morte. A vida não vale mais nada. Tornou-se um saco vazio esperando ser novamente enchido de amor, respeito e solidariedade, mas que de tão frágil é levado por qualquer lufada de vento. E talvez não se encha jamais.

Que Deus tenha piedade de nossas almas e proteja os nossos filhos.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Impunidade e violência das torcidas organizadas

Ressalto, antes de prosseguir, que não sou contra as torcidas organizadas. Sou contra os bandidos que nelas se infiltram para agredir, matar e roubar sob o pálio do anonimato.

Episódios reiterados de violência entre bandidos infiltrados em torcidas organizadas têm inundado as páginas dos informativos esportivos e policiais neste início de temporada. Não que o fato seja novidade, mas da forma como começou o ano, é bem provável que a avalanche de terror e violência seja a maior dos últimos tempos.

Os grandes clássicos regionais e nacionais sempre foram excelentes chamarizes para confrontos entre marginais travestidos de torcedores; atualmente, porém, a brutalidade se aprimorou. Com as facilidades proporcionadas pelas redes sociais, a ansiedade pelos clássicos terminou. A sanha sanguinária desses vândalos pode ser satisfeita a qualquer hora, em qualquer esquina, nos trens ou metrôs, de segunda a sexta-feira, independentemente de jogo marcado.  

Via de regra, a explosão de ódio e intolerância é direcionada ao torcedor do clube rival, o inimigo em potencial. Mas nem sempre a vítima está do lado oposto da arquibancada. Já não é de hoje que torcedores do mesmo clube também se engalfinham. Em alguns casos, como já ocorreu com membros de organizadas de Flamengo e Vasco, por exemplo, tiveram de ser separados por cordões de policiais dentro do estádio. Torcedores organizados do Corínthians brigaram recentemente para garantir quem colocaria a sua faixa no pequeno espaço reservado na Arena do Palmeiras; os torcedores palmeirenses, por sua vez, se agrediram fora do estádio; fato idêntico ocorreu com torcedores do Bahia ano passado. Membros de uma torcida do Flamengo invadiram o vestiário do Macaé. Pilharam, lesionaram o goleiro da equipe adversária e voltaram impunemente para as arquibancadas.

A pancadaria atual é contra tudo e contra todos, não escolhe alvo e nem divisão. Não raro, torcedores de clubes menores também se digladiam contra seus rivais locais.

E mesmo os torcedores comuns, aqueles que nunca sonharam integrar uma facção de torcida, comumente têm sido atacados covardemente apenas por vestirem a camisa de seus clubes. Famílias são alijadas dos estádios de futebol, porque ir a qualquer um deles ultimamente tem sido uma atividade de risco. Sabe-se que vai, mas não se sabe se chega ou se volta.

Algumas torcidas organizadas funcionam como verdadeiras organizações criminosas, em cujas sedes se homiziam criminosos com vasta folha penal, guardam-se armas de fogo, drogas e outros instrumentos para prática de violência. Trata-se de um problema social grave que transcendeu as rixas futebolísticas e, não raro, envolve disputas entre facções criminosas relacionadas ao tráfico de drogas. E não se deve olvidar que dirigentes inescrupulosos financiam esses grupos, dando-lhes poder e dinheiro, a fim de manipulá-los politicamente. Muitos têm livre acesso aos clubes e gratuidade garantida nos estádios por uma enxurrada de ingressos doados pelos cartolas.

A solução é complexa e não pode ser dada em parcas linhas. Nem é minha pretensão fazê-lo. No entanto, parece claro que deva passar necessariamente por ações preventivas desenvolvidas pela inteligência policial para evitar confrontos previamente agendados – infiltrando agentes, interceptando mensagens, investigando redes sociais - e por uma ação repressiva, manejada pelo Judiciário através da decretação ou manutenção da prisão e da responsabilização penal dos agressores, afastando-se, assim, a impunidade. Soam casuísticas e oportunistas as propostas levantadas por autoridades que, a cada morte, a cada violência perpetrada por membros de organizadas, sob a luz dos holofotes, vêm a público dizer que é preciso criar leis, aumentar penas etc. As leis existem, as penas também. Falta efetivamente prender e punir.

Lembro-me de que há algum tempo integrantes de uma organizada tricolor foram presos após agredir e roubar torcedores vascaínos. Acompanhei o caso e constatei o rigor da Chefe de Polícia, do Ministério Púbico e do Judiciário. A maioria foi processada por formação de quadrilha e  alguns também por roubo, estes últimos condenados a penas elevadas. É assim que se deve agir. Contra todos. Permaneci atento ao noticiário e não tive mais notícias, apesar dos reiterados episódios de conflitos entre torcidas, de outra atuação conjunta Executivo-Judiciário tão eficaz.

Torcedores de Atlético-PR e Vasco que protagonizaram lamentáveis cenas de violência em Joinville, na última rodada do Brasileiro de 2013, estão soltos. Membros da Gaviões da Fiel que depredaram um vagão de metrô – patrimônio considerado público – e espancaram quatro torcedores do São Paulo há poucos dias pagaram fiança e estão na rua. Outros tantos autores de crimes envolvendo torcidas de clubes de futebol também continuam impunes. Isso não é problema de falta de Lei é problema da sua má aplicação. Grupos de torcidas organizadas presos cometendo atos de vandalismo ou agressões são organizações criminosas e, como tal, devem ser tratados. Some-se à pena pelo crime de associação criminosa a de roubo ou outro ilícito praticado, e os seus autores provavelmente receberão uma bela reprimenda penal.

Tratá-los de forma diferenciada, sujeitando-os às regras processuais de Juizados Criminais – que julgam crimes de menor potencial ofensivo, diferentemente das Varas Criminais, que processam e julgam crimes mais graves – somente fomentará nos autores o sentimento da impunidade, uma vez que sofrerão penas levíssimas, que vão desde o pagamento de cestas básicas até a proibição de frequentar partidas de seu clube, como se essa proibição fosse suficiente para impedir que provoquem o caos antes ou depois dos jogos, ou até mesmo quando não há jogo.

Nem a proibição da torcida, ou mesmo seu banimento, são medidas suficientes para impedir atos criminosos de seus integrantes. Afinal de contas, o vândalo age independentemente de estar uniformizado, e a torcida, como já se viu, muda de nome e volta faceira às arquibancadas.

A certeza da impunidade talvez não seja a causa desse grave problema, mas por certo é um dos motivos pelos quais a violência é reiteradamente praticada. Se o agressor sabe que não será punido, ou terá sua reprimenda abrandada ou substituída por “cestas básicas”, ele se sentirá motivado a tornar a delinquir. O eminente jurista Nelson Hungria ensinava que: “ao analisarmos as causas de todos os crimes, veremos que elas estão não na quantidade das penas, mas na impunidade deles.”. Para ele não se combatia a criminalidade aumentando as penas, mas punindo o fato criminoso de acordo com o ordenamento vigente. A impunidade provoca no âmago do criminoso o sentimento de que a sua conduta é de somenos importância para o Estado, e, portanto, que poderá reiterá-la porque nenhuma sanção eficaz sofrerá. Um dos delitos mais graves do Código Penal, por exemplo, é o latrocínio – matar para roubar -, mas nem por isso é menos praticado. O bandido não tem medo da pena abstrata prevista no código – aquela gravada no texto frio da Lei -, tem medo é de ser preso e ter que efetivamente cumpri-la.

Assim, o “prender” e o “punir” ainda são os meios mais efetivos na luta contra a impunidade.

Infelizmente, entretanto, nem sempre é assim que funciona. Pode parecer contraditório, mas direitos e garantias fundamentais, recursos processuais e benefícios legais, que existem para proteger o réu inocente de um processo injusto – “mais vale um criminoso absolvido do que um inocente condenado” – são fórmulas eficazes, nas mãos de bons advogados, para impedir a responsabilização penal dos transgressores da lei e da ordem.

E de antemão alerto que limitar benefícios e garantias fundamentais encontra óbice na própria Constituição Federal. Até mesmo o crime considerado hediondo, cuja gravidade justifica um certo limite à concessão de benefícios, já teve o seu rigor relativizado para admitir liberdade provisória, progressão mais benéfica de regime prisional e até mesmo substituição da pena de prisão por prestação de serviço comunitário, como no caso do tráfico de drogas.

Parece que estamos num beco sem saída, onde o melhor caminho ainda é a aplicação irrestrita da lei, mesmo sendo esta suscetível de variada interpretação e subterfúgios processuais que, por vezes, darão ao criminoso a oportunidade de escapar à responsabilização penal. Não se pode, contudo, dela abdicar, pois aí sim o autor do fato criminoso receberá verdadeiro salvo-conduto para continuar a perpetrar delitos.

Enquanto as autoridades discutem o que fazer, a violência explode em níveis alarmantes, vitimizando torcedores de bem. O torcedor é compulsoriamente alijado do seu maior prazer para a garantia de sua integridade física e até mesmo de sua vida e a de sua família. Já temos estádios com torcida única. Em breve, os jogos serão disputados sem torcida alguma.

Péssimo para todos nós que vivenciaram um dia a magnitude de um estádio lotado em dias de clássico, sem cordões de isolamento ou policiais que separassem as torcidas. Uma época em que a “violência” era a galhofa ao rival e vencedores e perdedores sempre saíam ganhando com as boas recordações do espetáculo.


Se nada for feito para impedir a ação desses baderneiros, o futebol estará condenado a um triste fim, transformando-se em mera atração televisiva, se tanto, sem o calor e a paixão do torcedor de bem, aquele que, verdadeiramente, faz do jogo um espetáculo.