sábado, 26 de setembro de 2015

Ufa!

Eduardo Baptista chegou ao Fluminense com o firme propósito de não desapontar os seus principais medalhões: Fred e Ronaldinho Gaúcho. As suas primeiras entrevistas, já como treinador do Flu, deixaram bem claro que Fred seria (a única) referência na frente e, mais cauteloso em relação a R10, afirmou que o gaúcho seria escalado de acordo com o seu merecimento, ante a sua inegável qualidade técnica. Vale lembrar que esse “merecimento” veio após a sua terceira partida no comando técnico da equipe – hoje -, quando Ronaldinho havia participado das duas anteriores de forma – para não dizer o menos – bastante discreta.

Outro dos cartões de visita do nosso novo treinador foi, diante de um elenco em ebulição, tentar conter a surreal série de derrotas tricolores no campeonato brasileiro. Contra o Grêmio, pela Copa do Brasil, isso ficou bem claro: um time que se acertou razoavelmente defensivamente – pelo menos não sofreu gol -, mas que foi absolutamente inofensivo na frente, onde a única opção ofensivo era o Fred, sem qualquer apoio de um meio de campo que estava com as atenções totalmente voltadas para guarnecer a defesa. Veja-se, por exemplo, Cícero postado atrás da linha de meio de campo, raramente indo à frente auxiliar o ataque.

Foi com essa estratégia que o Flu iniciou a partida contra o Goiás, exceção feita ao retorno de R10 como titular no lugar do voluntarioso Marcos Junio.

Diferentemente da partida anterior contra o Grêmio, contudo, o tricolor, nos primeiros vinte minutos, conseguiu finalizar três vezes – ainda que “petelecos” – demonstrando que, se o empate contra os gaúchos foi um bom resultado – na concepção de Eduardo Baptista – não o seria, porém, contra o esmeraldino.

Mas no primeiro tempo o Flu continuou sendo um time atordoado, sem qualquer estratégia ofensiva, preocupado demais em não sofrer gols, em que pese Marlon ter sido displicente em pelo menos quatro oportunidades, situações que, por muito pouco, não resultaram em gol do Goiás. E ainda errou passes demais, sobretudo pelo lado esquerdo – lado mais acionado – com Léo e Scarpa. Cícero, apesar de importante função defensiva, arriscou alguns passes mais longos, acertando uns e errando outros. Eu o prefiro mais adiantadao, onde costuma proporcionar boas jogadas ofensivas e até aparecer como elemento surpresa para marcar gols.

R10 foi o mesmo R10. Abaixo da crítica. Começou como titular para não ser desagradado. Apenas isso.

E o gol? O Flu fez o gol de sua vitória parcial graças à “malandragem” de Ronaldinho. Nisso ele é bom, talvez porque sua vida desregrada, nesse quesito, o ajude. Cobrou rapidamente uma falta para Léo, que cruzou para Fred se antecipar aos zagueiros e fazer o tento tricolor. Fred, aliás, o melhor da primeira etapa. Como a bola chegava pouco, recuou para armar jogadas e as melhores surgiram justamente de seus pés.

Fred, se não foi brilhante, foi brioso.

E assim terminou o primeiro tempo, não sem antes algum sufoco do adversário e uma defesa espetacular de Cavalieri, salvando o Flu do empate no final.

O segundo tempo já se iniciou sem R10. Alteração acertada de Eduardo Baptista, uma vez que nem o nome, nem o currículo do jogador poderiam mantê-lo em campo ante tamanha inércia, sofreguidão e desinteresse.

Marcos Junio, seu substituto, deu mais movimentação à equipe e, antes dos cinco minutos, a mudança deu resultado. Fred deu um passe inteligente, verdadeira assistência, que deixou Scarpa livre para dar uma belo “lençol” no zagueiro e marcar um golaço, de bate-pronto. O Flu ampliou em ótimo momento, quando o Goiás ainda se arrumava em campo, resultado que lhe dava certa tranquilidade.

Logo após o gol, o Flu teve uma grande chance com Marcos Junio e passou, a partir daí, a admininstrar o resultado, esperando o Goiás para matar o jogo num contra-ataque.

A defesa se acertou, vacilando menos e o time foi mais incisivo, talvez pela necessidade de o Goiás avançar para tentar pelo menos um empate, mas de qualquer maneira, foi um segundo tempo muito melhor do que o primeiro, o melhor período, por certo, sob o comando de Eduardo Baptista.

Embora o Goiás passasse a ter mais posse de bola, o Tricolor administrava bem o jogo. Oswaldo ainda entrou para puxar os contra-ataques e Welington Paulista para poupar Scarpa que já estava amarelado. Cavalieri fez outra defesa sensacional em chute de Zé Love, consequência de um Flu mais recuado, propositalmente, à espera de um lance derradeiro para definir a partida.  Logo em seguida, fez outra boa defesa em cobrança de falta e, em outro tiro, o Flu foi salvo pelo travessão.

O terceiro gol não saiu, mas veio a primeira vitória no returno. Importantíssima, fundamental, principalmente porque o próximo jogo será contra o Santos.

Vá lá que o Goiás não tenha sido um adversário a impor muitas dificuldades ao Fluminense, mas depois de uma sequência tão negativa, os três pontos foram essenciais, sobretudo para recuperar o moral do grupo para afastar qualquer risco de rebaixamento no campeonato brasileiro e avançar na Copa do Brasil.

E se eu tivesse que resumir a partida de hoje em uma única palavra, esta seria: ufa!


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Operação em processamento

Os Bancos são locais onde tradicionalmente as pessoas costumam desabafar suas angústias enquanto aguardam atendimento. Acostumado a essa prática, não estranhei quando, sexta passada, numa agência bancária, um senhor diante de um caixa eletrônico começou a esbravejar palavras impublicáveis. Imaginei logo tratar-se de impropérios contra os terríveis banqueiros, suas criações e o descaso costumeiro com a clientela.

Intrigado e curioso por descobrir o motivo da irresignação daquele homem, que já atraía a curiosidade de bastante gente ao seu redor, dirigi-lhe a minha atenção. Xingava, bradava e procurava alguém que lhe desse ouvidos. Olhou em minha direção e, para não desapontá-lo – e também para mostrar minha insatisfação com os serviços bancários, mesmo sem ainda saber qual deles era o motivo da sua ira – assenti com um sorriso chocho, sinal que, para ele, foi suficiente para despejar sobre mim a causa de seu desatino:

- “Ta vendo isso! Bando de f...Olha ali, olha ali! Que demora!”, apontando para o caixa eletrônico.

Observei, então, para ver o que tanto o irritava. O display do aparelho mostrava um ícone rodando rapidamente ao redor de seu próprio eixo e, ao lado, o aviso: “Operação em processamento”.

Então entendi que aquele senhor, dentre todas as reclamações que poderia fazer -  e não seriam poucas: tarifas bancárias, usura dissimulada, impostos, lucros exorbitantes dos banqueiros etc – escolheu reclamar do processamento de sua solicitação que, para ele, extrapolara o limite do razoável.

Enquanto incrementava o repertório de suas ofensas, um cliente o cutucou alertando-o de que o dinheiro solicitado já estava disponível. Virou-se, então, rapidamente, pegou o dinheiro e saiu, deixando para trás apenas os ecos de sua revolta.

E então me veio a inevitável comparação com a realidade do atual Fluminense e as suas “operações em processamento”, questiúnculas que, exageradas, ganham a preferência do torcedor no quesito reclamação. Assim como no caso daquele cliente, muitos de nós enxergamos apenas os problemas mais aparentes, que nos afligem diretamente e nos esquecemos do restante do “iceberg”.

Evidentemente, Cristóvão, Drubscky e Enderson foram malfadadas apostas que não deram resultado. Pudera, nenhum deles tinha currículo para ser treinador do  Fluminense e, se um deles funcionasse, certamente seria obra do acaso. E aí está a “operação em processamento” que tanto nos irrita. E irrita tanto que deixamos de buscar a causa do descaso, o motivo pelo qual fomos submetidos à inépcia desses profissionais, para bradarmos contra treinadores ou mesmo jogadores inabilitados.

É preciso enxergar mais longe para perceber que se há um Drubscky, é porque alguém o trouxe. Se há conflitos internos, é porque quem deveria controlá-los é pusilânime. Se há dívidas, é porque quem deveria zelar pela ordem financeira do clube não o faz.

Observar e criticar somente o efeito é uma opção simplista demais. É preciso buscar a causa.

Nem tudo, porém, é divulgado pela imprensa. Nem todos têm acesso às informações privilegiadas que vêm do clube, mas nem por isso se deve aquiescer parcimoniosamente. Um pouco de sensatez nos permitirá concluir que o problema não está apenas no que é visível, mas está sobretudo naquilo que não podemos ver. Não podemos ver, mas podemos sentir.

O Fluminense precisa de uma reestruturação profunda em seu departamento de futebol, que já demonstrou ser inepto e omisso, sem capacidade para fazer as melhores escolhas técnicas e sem pulso para controlar as insatisfações internas, quando ocorrem - e em todos os clubes elas ocorrem, mas são incêndios apagados sem que, na maioria das vezes, extrapolem as suas paredes. Talvez essa seja a explicação das quedas vertiginosas de rendimento da equipe nos últimos anos, de times que vinham bem e, subitamente, protagonizaram inenarráveis vexames.

Trocar treinadores é medida paliativa. E se são trocados com frequência é porque foram mal escolhidos. Responsabilidade de quem os escolheu.

Eduardo Baptista é o novo nome. Outra aposta, pois um título pernambucano e uma copa do Nordeste não podem credenciar ninguém a ser treinador de um grande clube como o Fluminense. Particularmente, contudo, essa aposta me parece melhor do que as três anteriores e, como sempre costumo proceder, a ele também desejo a melhor sorte, porque quem ganhará com o seu sucesso será o Fluminense.

De qualquer forma, embora me pareça uma boa aposta, Eduardo não é fruto de um projeto. É apenas mais um remendo para salvar o clube dessa queda absurda e preocupante, evitando-se o fantasma do rebaixamento. E o Fluminense precisa de um projeto de retomada das glórias, não de paliativos.

Eduardo Baptista pode dar certo e permanecer no Flu para a temporada seguinte – assinou contrato até o fim de 2016. É o que deve acontecer se conseguir salvar o time do rebaixamento e avançar mais um ou dois degraus na Copa do Brasil, mas nunca será um projeto, nunca terá sido o nome idealizado para comandar o clube de volta às grandes conquistas. Se acontecer, como já disse, será obra do acaso, não do planejamento.

Portanto, o Fluminense de hoje está à mercê das intempéries. Se há um vento bom, navega boas léguas rumo ao seu destino final. Se não há vento, não vai a lugar algum e, se enfrenta uma poderosa tormenta, tende a naufragar.

A solução para esse Fluminense passa necessariamente pelo torcedor, que precisa enxergar além das problemáticas aparentes, da demora da “operação em processamento” que afligiu o cliente impaciente para entender que todo efeito tem causa e que essa causa pode estar na incapacidade de quem atualmente define os rumos do futebol tricolor.

Para esse problema há duas soluções: a atuação firme do presidente do clube renovando o quadro do departamento de futebol e a manifestação do torcedor que, chamado a depositar o seu voto na urna, deposite junto com ele o seu anseio por mudanças profundas na administração do Fluminense Football Club.

O torcedor tricolor precisa, assim, ler as entrelinhas, ser verdadeiramente crítico, consciente e politizado, porque até para reclamar, é preciso saber fazê-lo.






segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A Pasárgada de Ronaldinho

Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/
Na cama que escolherei
...”. Este excerto de “Vou-me embora pra Pasárgada”, do poeta maior Manuel Bandeira, foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao saber dos recentes desatinos de Ronaldinho Gaúcho no Fluminense.

Faço aqui, primeiramente, o meu “mea culpa” por ter assumido publicamente que R10 seria imprescindível ao Flu por sua qualidade técnica. Graças a Deus a liberdade de expressão me permite reconhecer que errei no meu prognóstico em relação a esse jogador. Infelizmente, a técnica sem o comprometimento não serve de nada. Ronaldinho retornou do México não para ser o que foi no Atlético/MG, mas para ser menos do que foi no Flamengo.

Veio buscar no Rio de Janeiro e, mais especificamente no Fluminense, que lhe abriu as portas, a sua Pasárgada. Regiamente remunerado, cercado de bajuladores aos borbotões e de mulheres disponíveis à sua lascividade, tornou à sua mansão, a “casa da mãe Joana”, pretendendo fazer do Fluminense a sua extensão.

Fred percebeu isso; Enderson, também; a diretoria idem, mas esta, como sói acontecer, permaneceu inerte. A torcida já desconfiava, mas agora as informações já chegam não por boatos, e sim por veículos oficiais da imprensa. E não se diga que se trata de mais uma orquestração da famigerada flapress. A queda vertiginosa de produção do Fluminense não poderia ser atribuída unicamente ao fraco Enderson Moreira. Ele teria que ser pior do que um Drubscky para que permitisse que isso ocorresse apenas por sua deficiência profissional. Havia algo mais e o algo mais está aí: Ronaldinho Gaúcho e alguns outros que resolveram seguir seu “Ronaldinho way of life”.

A insatisfação com a reserva, as desculpas rotas, a ressaca quase diária e a indolência no campo de jogo são a prova cabal de que Ronaldinho retornou ao Rio de Janeiro para fazer o que mais gosta na vida: curti-la adoidado. Todo o resto está em segundo plano, inclusive o Fluminense.

Por isso, Fred se insurgiu. Percebendo que a laranja podre poderia contaminar outras, inclusive a jovem safra de Xerém, agiu como se deve agir um líder. Chamou para si a responsabilidade, separou o joio do trigo e preservou os garotos de Xerém da perniciosa influência de R10. É claro que, se tivéssemos uma diretoria menos pusilânime, esse papel não caberia a ele e, provavelmente, R10 nem mesmo tornaria a vestir a camisa tricolor.

De toda a sorte, parece que esse foi o motivo de terem preservado, depois de tantos malogros, o medíocre Enderson Moreira. O momento, agora, é de apostar na base e nos que estiverem comprometidos, aqueles que atenderam ao chamado de Fred, e torcer para que esse prejuízo enorme seja pelo menos amenizado com a possibilidade de se voltar à luta pelo G4.

Quanto ao R10 fica a certeza de que não quer nada com o Fluminense, quer dele apenas o seu salário e, de preferência, em dia. E a incerteza: rescindir seu contrato seria o melhor caminho? Provavelmente o prejuízo seria do tricolor, tanto pela multa, quanto pela possibilidade de se continuar pagando o seu salário até o fim de seu contrato. Ou seria menos oneroso mantê-lo no elenco, mesmo sem a menor intenção de se dedicar dentro de campo e ainda correndo o risco de que seu contato diário com outros jogadores possa interferir em seus comportamentos e no bom ambiente do grupo? Esta é uma pergunta retórica para você, tricolor. Quem deve respondê-la é o responsável pela sua contratação.

Eu, como torcedor, tenho o direito de errar ao analisar uma contratação. Um profissional do clube pode até fazê-lo, mas deve responsabilizar-se por seus atos. É assim numa empresa, deveria ser assim num clube de futebol.

Enquanto isso torçamos para que o Fluminense se ajuste. Imbuído das veementes palavras de Fred, que nossos jogadores entendam que vestem a camisa de um grande clube, que a ele devem respeito e que por ele e por sua torcida devem se almejar sempre a vitória.


E que Ronaldinho Gaúcho reúna seus pagodeiros, mulheres e bajuladores e encontre outra Pasárgada para levar sua trupe, porque o Fluminense é a minha e a sua Pasárgada, tricolor apaixonado,  e lá não entra quem não é amigo do rei.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Sem desculpas

Enderson Moreira é um cara sortudo. Tem contado com a infeliz coincidência das arbitragens catastróficas que nos prejudicam para justificar seu pífio comando técnico à frente do Fluminense. E quando não são as arbitragens, tem uma falha aqui, outra ali, um cansaço, ou outra qualquer desculpa para atenuar a sua incompetência.

Perder sete das últimas nove partidas disputadas não é para qualquer um; não é apenas para um azarado. Tem que ser ruim mesmo. Talvez Enderson tenha tido alguma sorte quando fez esse time correr e ganhar alguns jogos mais na transpiração do que na inspiração.

Refiro-me à sorte, porque nunca houve nesse Fluminense de hoje, como nos outros que vimos sob os também desastrosos comandos anteriores, qualquer esboço de organização tática. Um esquema retrancado, que fosse, mas organizado. Nem isso se viu. Estamos há um tempo pra lá de longo à mercê de desmandos da nossa direção do Futebol, que se esforçou para montar uma equipe que poderia ser competitiva, mas não deu a ela um comandante digno das tradições tricolores.

Quando Enderson assumiu, depois – só para ficar nos dois – das apostas em Cristóvão e Drubscky, escrevi que o nosso treinador seria um “tiro à luz opaca” da diretoria tricolor. Disse isso, porque em relação a Drubscky, o imaginei como sendo “um tiro no escuro”. Portanto, dei um pouquinho mais de claridade, ainda que tênue, ao nosso atual treinador.

O problema é que isso não é suficiente. O Fluminense precisa de luz fulgurante, viva, resplandecente e não de um fanal que emana frouxo de um técnico que não tem currículo para comandar um Fluminense.

Mas Enderson desempenha o seu papel tosco, porque alguém o contratou e o mantém no cargo. A responsabilidade, então, precisa ser compartilhada, afinal de contas, errar é humano, persistir no erro é burrice. Insistir, portanto, em desconhecidos para comandar o Fluminense deve ser algo impublicável. É a chamada economia “porca”.

E o resultado aí está. Uma equipe que, apesar dos desfalques e das limitações, poderia estar disputando novamente um título nacional, chegou a sonhar com uma vaga da Libertadores e, agora, gradualmente, vai se afastando cada vez mais de seus maiores objetivos para se contentar, talvez, com uma posição intermediária, sem sustos de rebaixamento.

Me desculpem os amigos mais otimistas. Eu também sou um otimista, mas antes de tudo sou realista. Quando assisti ao Fluminense acovardado contra o Atlético MG, a minha reação não foi de raiva, mas de decepção, resignação ante a incapacidade de quem estava à beira do campo de fazer algo novo pela equipe. Enderson nunca deu forma ao Fluminense e, parece que agora, nem consegue mais dar o ímpeto que ao menos se viu em alguns jogos no início da competição.

Ainda há a Copa do Brasil. Sim, há. Já houve casos em que equipes que vão mal numa competição se reinventam em outra. Pode acontecer. O Flu pode ser campeão da Copa do Brasil e voltar à Libertadores, nosso sonho mais desejado. E eu torço por isso, mas no fundo, no meu âmago, duvido que aconteça. Menos pela qualidade do elenco que temos do que pela inaptidão do senhor Enderson Moreira.

Escrevo este texto resignado, pois diante do nosso atual comando técnico do futebol, nem mesmo posso torcer para que Enderson seja demitido, pois o seu substituto pode ser de qualidade ainda mais duvidosa. É a velha história de que se está ruim com ele pode ficar pior sem ele.

O Fluminense das Laranjeiras, portanto, tem deprimido a cada jogo o seu torcedor, transformando-o em melancólico assistente de partidas em que o Tricolor, disforme dentro de campo, reiteradamente é derrotado.

Mas se o Fluminense das Laranjeiras vai mal, o de Xerém nos agraciou com um retumbante título nacional na categoria sub-20. Em campanha invicta, mostrou a todo o Brasil a força da nossa base, fruto de um trabalho que se deve creditar ao Presidente Peter por sua ação para reconstruir em estrutura física e pessoal a casa de nossos garotos. Lá, mais do que jogadores de futebol, o Fluminense forma homens, praticando uma função social que deveria ser exemplo para todos os demais clubes brasileiros.


Esse é o Fluminense que nos têm orgulhado, mas que precisa ser um só. Que a melancolia do Fluminense das Laranjeiras sorva o vigor do Fluminense de Xerém para que, com ou sem Enderson Moreira, torne a ser novamente uma equipe competitiva e briosa dentro de campo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O excesso e a violência desportiva

A violentíssima cotovelada desferida pelo jogador Betinho em Edson, na vitória do Flu sobre o Paysandu pela Copa do Brasil, por sorte não teve as consequências que se imaginaram ante a contundência da imagem da agressão e, posteriormente, do atleta tricolor sendo levado para o Hospital semiacordado para a avaliação de seu quadro de saúde.

Edson teve a suspeita de ter fraturado o nariz, o que não se confirmou e, boa alma que é, aceitou o pedido de desculpas de seu agressor. Edson está certo, nada de mágoas, nada de rancor. O perdão do tricolor, porém, não deve servir para atenuar eventual punição desportiva ao atleta da equipe paraense. O Tricolor pode e deve perdoar, mostrando altivez, mas a Justiça Desportiva, ao contrário, pode e deve punir o agressor com todo o rigor.

Um nariz quase quebrado e a saída precoce da partida podem ter sido os menores dos problemas do jogador tricolor. A violência da entrada poderia ter causado consequências mais graves, como já ocorreu em outras oportunidades no futebol, quando jogadores, vítimas de agressões de colegas de profissão, tiveram sérias fraturas e até lesões cerebrais.

Mas o que legitima a violência desportiva? – tratada aqui apenas no âmbito do futebol, mas que pode ocorrer em qualquer esporte coletivo de contato físico – O que a difere, por exemplo, de uma briga de rua comum? Por que a cotovelada desferida por Betinho dentro do campo de jogo não é um crime, enquanto a mesma cotovelada, se perpetrada fora do campo o seria?

A violência que ocorre no âmbito esportivo é legitimada pelo Direito, ou seja, decorre de uma ficção jurídica que se denomina exercício regular do direito. O atleta, desde que preenchidas certas condições, pode praticar a violência contra o seu companheiro, sem que isso configure crime de lesão corporal. Para tanto, a agressão deve ocorrer dentro dos limites do esporte ou de seus desdobramentos previsíveis, o ofendido deve estar ciente dos riscos inerentes da disputa desportiva, a prática esportiva deve estar regulamentada em lei e a atividade não pode ser contrária aos bons costumes.

É por isso, também, por exemplo, que o boxeador que nocauteia o seu adversário não pratica crime algum, pois os socos que desfere estão legitimados em razão das regras do desporto.

Ocorre, contudo, que a violência desportiva abarcada pelo exercício regular do direito tem limites e o seu excesso poder caracterizar a prática de crime comum. A questão que se põe é como caracterizar o excesso em casos mais graves, como o que, por exemplo, vitimou o atleta tricolor.

Evidentemente, aferir o dolo do autor da agressão – dolo: consciência e vontade de praticar a lesão – é tarefa que encontra óbice na subjetividade. Não se deve olvidar, no entanto, que a tecnologia atual de mil câmeras nos estádios facilita sobremaneira a percepção da conduta do atleta que pratica a agressão. Um soco, uma cotovelada, um pontapé podem caracterizar, eventualmente, esse dolo.

Vale lembrar que a violência é inerente ao futebol. O que se deve coibir é a violência que extrapola, que excede, que visa tão somente a lesionar o adversário. Nesse caso, a agressão não estaria legitimada e poderia, dependendo das circunstâncias, constituir verdadeira infração penal punida pelo Poder Judiciário, mesmo quando cometida dentro do campo de jogo.

Não se trata aqui, vale ressaltar, da entrada imprudente do atleta que almeja tirar a bola de seu adversário, ou da falta grave para evitar um contra-ataque ou um gol. Embora nessas situações possa haver lesões sérias, o que se pretendeu foi agir de acordo com as regras do jogo (a falta é seu elemento) e nunca violar a integridade física do companheiro de profissão. Nesses casos, a imprudência ou mesmo a falta violentíssima, em que pese esta ser reprovável, são inerentes ao esporte e devem ser punidas no âmbito desportivo.

O excesso de que trato não é o excesso na gravidade da falta, mas na intenção de quem a pratica. Se a intenção é unicamente a de agredir, pode-se pensar em crime. Se a intenção é agir, mesmo com o recurso da violência decorrente da infração de jogo, no exercício do direito de praticar o esporte, não há que se falar em crime, independentemente da gravidade da lesão eventualmente sofrida.

Depois de passado o susto, talvez muitos possam dizer que a lesão sofrida por Edson tenha sido algo absolutamente natural, inerente ao futebol, “ossos do ofício”. Mas e se não fosse? E se o atleta estivesse hoje numa cadeira de rodas, ou com grave lesão cerebral? O que fazer? A expulsão e alguns jogos afastado seria a punição adequada ao agressor?

Quando Betinho subiu naquela bola, agiu unicamente para agredir o adversário e, portanto, a sua conduta extrapolou os limites da violência desportiva autorizada. Edinho devia estar “entorpecido” por algum “alucinógeno” quando afirmou que “esta é a técnica correta para subir e se proteger”.

Assim, constatado o dolo de agredir, o excesso irrazoável na violência desportiva, o atleta agressor deveria ser punido como o autor de um crime de lesão corporal. É preciso deixar de lado o costume de só se irresignar com as atitudes quando as consequências são graves ou chocam. Esperar o pior acontecer para que drásticas atitudes sejam tomadas não evitará que o pior ocorra. É preciso coibir e é preciso prevenir.

Também não se pode banalizar a agressão, transformando-a em crime, sob pena de se desvirtuar o espírito do futebol, que é baseado no contato físico. Somente o caso concreto poderá dizer se o atleta realmente extrapolou da violência desportiva para agredir com animus de lesionar o companheiro de profissão e, nesse caso, a sua conduta deverá ser apreciada pela Justiça Comum.

Da mesma forma, como já se viu amiúde, praticas racistas, injurias raciais entre jogadores, mesmo perpetradas dentro de campo de jogo, foram levadas às delegacias policiais, o que abre precedentes para que outras condutas criminosas também sejam tratadas da mesma forma.

Edson fraturou o nariz, mas amanhã João poderá sofrer uma grave lesão cerebral e ficar o resto de sua vida incapacitado. As autoridades desportivas e públicas devem estar atentas para que o direito de exercer a profissão esportiva não sirva de salvaguarda para a prática de crimes que podem ter consequências gravíssimas.


O esporte é saudável enquanto praticado com respeito às regras e à integridade física e moral dos seus participantes. Tudo o que extrapola a violência permitida, ou seja, o seu excesso odioso, que é a violência física ou moral dolosas, deve ser tratado fora do âmbito desportivo e lá apurado e rigorosamente punido.

Imagem: Globoesporte.com

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Tudo pode mudar em 90 minutos

Na vitória tricolor sobre o Payssandu pela Copa do Brasil, três jogadores foram protagonistas: o atacante Magno Alves, o lateral direito Renato e o goleiro Júlio César. Os dois primeiros foram os autores dos gols do Fluminense e o goleiro, um dos maiores responsáveis por garantir o resultado com ótimas defesas.

Não haveria nada de especial nisso se esses três jogadores não fossem um veterano artilheiro que, aos 39 anos de idade e de volta ao clube que o projetou, ainda não havia marcado com a camisa tricolor; um lateral direito que era questionado por parte da torcida – frise-se que lesões que o retiraram do gramado por longo período e o banco de reservas nunca permitiram que mostrasse plenamente seu futebol – e um goleiro que ainda não jogara pelo Flu, mas que chegara ao tricolor sob o estigma de fracassos anteriores, sobretudo quando vestiu a camisa do Botafogo, antes de ser vendido para a Europa.

Logo depois da partida – e é isso que torna o futebol apaixonante – diversos torcedores se manifestaram sobre a inusitada coincidência de três jogadores criticados, obscuros, da “segunda linha” do elenco tricolor terem sido os principais responsáveis pela importantíssima vitória sobre o clube nortista. Espalharam-se pelas redes sociais hashtags do tipo “#nuncacritiquei” ou “#nuncafaleimal” e ainda apaixonadas manifestações sobre a nova “muralha” tricolor que alguns, mais empolgados, já atribuíam a titularidade no gol do Fluminense.

E o que tem isso? Nada demais.

Ao torcedor é lícito “cornetar”. Somente a ele é dado o direito de ser volúvel em suas opiniões, tão volúvel e dinâmico como é o futebol. Não me espantaria se alguns daqueles que disseram que nunca criticaram Magno Alves ou Renato estivessem mentindo. Faz parte. Nem me espanto que, por uma única apresentação, pretendam trocar Cavalieri por Júlio César no gol tricolor.

Também não seria de estranhar que essas mesmas vozes, daqui a um mês, após mais dez partidas em branco do veterano artilheiro, de algumas pixotadas do esforçado Renato e uma ou duas falhas do aclamado estreante, tornem com força total às críticas que uma única partida teve o condão de arrefecer.

Tal qual a cornetagem, o entusiasmo exacerbado também está inserido no espírito do futebol. Sem essas sensações fugazes e eloquentes o esporte perderia a sua graça. Quantos heróis de 90 minutos já não vimos? Jogadores que entraram para a história numa única partida e que depois jamais reeditaram um átimo daquele encanto passageiro...Não nos fizeram felizes, mesmo que por uma única partida?

Por isso, a minha mensagem ao torcedor tricolor é para que não se tolha. Se hoje, por exemplo, você assistiu a uma atuação estupenda do zagueiro Henrique, brade a plenos pulmões: “Henrique é seleção!”. Se amanhã ele falhar bisonhamente, xingue até a quinta geração de sua mãe.

Tê-lo enaltecido ou criticado antes, não lhe retira a legitimidade de criticá-lo ou enaltecê-lo posteriormente.


Esse é um direito seu, inalienável, que ninguém pode turbar. Afinal de contas, assim como na vida, o direito de se arrepender ou mudar de opinião é o que engrandece o debate esportivo. Mude de opinião sempre que achar que deva e não dê bola para os patrulheiros de plantão. Afinal, eles também mudam de opinião, só não admitem isso para você.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Fluminense em desencanto

Não demorará muito para que surjam na mídia especulações sobre a presença de Ronaldinho Gaúcho no Fluminense e o seu desempenho mais recente na competição, quando, num viés de decadência, perdeu quatro dos últimos cinco confrontos; período em que, por coincidência, R10 esteve presente em parte.

Obviamente, será uma comparação despropositada bastante comum quando advém de uma imprensa, cuja sanha por denegrir nossos benfeitos é muito maior do que averiguar as verdadeiras causas que poderiam ter ensejado a recente má-fase tricolor.

Não se olvide que o clube de regatas contratou um tal de Guerrero, que nunca estará à sombra de um R10, mas que precisa veementemente ser a “grande contratação”, o craque do campeonato para o bem das finanças de jornalecos e outras mídias de segunda categoria e da torcida que é seu público.

Assim, portanto, persistindo as más apresentações, o nome de Ronaldinho passará ser questionado.

Não caiamos nessa falácia, porém. R10 é jogador de que não se prescinde. Craque de primeira grandeza que, enquanto estiver sendo profissional dentro de campo e responsável fora dele, será sempre utilíssimo.

O problema do Fluminense é outro. Sem entrar na seara das estratégias e esquemas, posicionamentos de jogadores e outras questões técnicas do esporte, cuja expertise é toda da companheira Crys Bruno, leigo como sou, posso minimamente constatar que o mal que assola o Tricolor é a deficiência no seu comando.

Assim, como Cristóvão e Drubscky, Enderson chegou ao Flu como uma aposta. Um treinador sem respaldo curricular que o credenciasse a dirigir um gigante do futebol nacional. Ao contrário, contudo, de seus antecessores, Enderson foi mais efetivo e incisivo para minorar problemas pontuais, como a crônica questão da defesa. Além disso, deu ao Flu uma formação mais coletiva e solidária que se destacou em algumas partidas mais pela garra e determinação do que por qualquer esquema tático propriamente dito.

Ocorre que esse sopro de ousadia, em regra, se dá dentro de nossos domínios, com a torcida como testemunha presencial e onde seria impensável atuar sem o constante desejo de vencer. Nessas oportunidades, o Flu é volúpia pura. Insinuante, marca avançado e pressiona com força até desmantelar em algum momento a defesa adversária.

Mas Enderson parece ser daqueles treinadores, tão comuns no futebol nacional, que preferem a garantia do emprego – e para tanto o empate fora de casa é sempre bom resultado -, à imposição de seu pensamento de jogo de forma uniforme, independentemente do adversário ou do local da partida.

E assim é, porque reiteradamente o Fluminense se apresenta fora de seus domínios como um visitante cheio de cerimônia, que pede licença para chegar à área adversária e se contenta em disputar o jogo com o firme propósito de apenas não ser derrotado.

Por mais de uma vez, esse respeito absoluto – que se pode traduzir numa covardia despropositada de um treinador que planeja apenas não perder – nos tirou pontos importantes na competição, sendo responsável direto pelos mais recentes malogros do Flu.

Não adianta o treinador justificar as derrotas alegando simploriamente que o time jogou mal. É claro que jogou mal, mas jogou mal por quê? Uma equipe escalada para defender, pelas características de seus jogadores, jamais será capaz de ser ofensiva. É instintivo. Escalar um Pierre – apesar da eficiência nas suas funções – é dizer aos demais jogadores e a todos nós que o intuito da equipe é jogar retrancada.

E quem joga apenas por empate, invariavelmente perde.

Se ainda não reparou, tricolor, aproveite as próximas partidas e compare. O Flu do Maracanã com o Flu que joga longe de casa. Basta observar o posicionamento no momento da marcação, os avanços ou não dos laterais, o comedimento ou a ousadia. Ficará claro para você que talvez ainda não tenha percebido isso, que o Flu é um time bipolar, tão bipolar quanto seu treinador.

É claro que desfalques como o de Vinícius e Giovanni – jogador que atuava com correção, dentro de suas limitações – fazem falta. Mas não é por suas ausências que o Flu caiu de rendimento, nem perdeu seus últimos jogos por culpa exclusiva da arbitragem. A questão é crônica e é de comando. Com o elenco que tem – que não deve nada a nenhum outro do futebol nacional – não se justificam dois pesos e duas medidas na forma de atuar da equipe.

A covardia do senhor Enderson nos custou pontos importantíssimos e não sei mais quantos custará. Sem exageros, o Fluminense deveria estar lutando pela liderança do campeonato, mas não consegue se firmar entre os quatro primeiros. Alguém poderia dizer que, diante do quadro inicial da temporada, brigar pelo G4 já seria um grande prêmio. Sim, é. Lutar por uma vaga na Libertadores e, se possível, conquistá-la, será um grande galardão, mas se temos a chance de buscar o quinto título nacional, por que não fazê-lo?

O Fluminense disputa competições para vencer. Outras situações que decorram das circunstâncias do campeonato poderão ser interessantes, mas o que se deve perseguir é e sempre será a primeira colocação.

E o que falta para isso? Falta o nosso treinador deixar a covardia de lado, o receio de perder o emprego e fazer o Fluminense jogar como devem jogar os grandes clubes. Apequená-lo diante de adversários combalidos por crises e outros inferiores tecnicamente é reconhecer publicamente a sua incompetência.


Ao senhor Enderson falta ousar mais. Afinal, como já se disse, “ousar lutar, ousar vencer”. E para o Fluminense o que realmente importa é o “vencer ou vencer”. Sempre.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A espanholização e a livre concorrência

Desde 2011, quando a Rede Globo passou a negociar diretamente com os clubes de futebol os valores das cotas de televisão a que fariam jus pelos direitos de transmissão de seus jogos, as receitas pagas a Flamengo e Corinthians passaram a ser substancialmente maiores do que as dos demais clubes brasileiros.

A mandatária de fato do futebol nacional, utilizando o critério simplista e desigual do tamanho das torcidas, passou a concentrar cerca de 20% de toda a receita de transmissão nos cofres dos citados clubes. Enquanto isso, distante do parnaso onde pairam soberanos os protegidos da Vênus Platinada, Fluminense, Botafogo, Atlético/MG, Cruzeiro e Inter, por exemplo, formam o terceiro escalão de receitas, recebendo da empresa televisiva cerca de cinquenta milhões de reais por ano a menos. Outros têm ainda menos importância perante a visão capitalista-selvagem das Organizações Globo.

E o cenário tende a piorar. Para o triênio 2016-2018, Flamengo e Corinthians terão seus contratos reajustados em cinquenta milhões de reais, passando a receber 170 milhões de reais/ano, enquanto o Flu, no terceiro bloco, arrecadrá 60 milhões/ano. São 110 milhões/ano de diferença, valor desproporcional, irrazoável e que não se justificaria se o critério adotado para a distribuição das verbas fosse outro que não a quantidade de torcedores. Dinheiro, diga-se de passagem, que provém dos patrocinadores que anunciam seus produtos na toda poderosa emissora da família Marinho.

Esse abismo financeiro, em alguns anos, tratará de assassinar o futebol como competição, eliminando o espírito desportivo fulcrado na regra da igualdade para privilegiar Flamengo e Vasco, como na Espanha privilegiou-se Barcelona e Real Madrid, ambos já há algum tempo os únicos protagonistas nas competições daquele país europeu.

Se esse é o propósito da Rede Globo, estão no caminho certo. Fulminado o equilíbrio financeiro dos competidores, os dois clubes referidos despontarão solitários como as únicas forças capazes de disputar e ganhar competições dentro e fora do Brasil. Esse aniquilamento gradativo dos demais clubes, sobretudo do terceiro escalão para baixo, matará, também, pouco a pouco, o próprio esporte.

Imagine-se o candidato de um grande partido político que possui vinte minutos de tempo na TV para expor sua plataforma eleitoral. Agora, outro, de um partido-anão, que dispõe de apenas um minuto para explanar plataforma semelhante. A conclusão lógica é de que será eleito o primeiro candidato, com razoável margem de vantagem. Assim será no futebol. O abismo entre os clubes será tão colossal que nem mesmo uma força sobrenatural tornará possível que concorram em igualdades de condições dentro do campo de jogo.

E como se resolve isso?

Contra o capital, a luta é 99% das vezes inglória. A única solução que entendo viável seria – descontando-se a própria revisão de sua decisão pela televisão, o que não deve acontecer -  a intervenção do Estado, através do Ministério Público, em defesa da Constituição da República e com vistas à garantia do direito à livre concorrência.
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
I - soberania nacional;
II - propriedade privada;
III - função social da propriedade;
IV - livre concorrência;
Embora a disposição constitucional regule a atividade econômica, não se pode afastar da abrangência da norma a regulação sobre as práticas desenvolvidas pela Rede Globo, que movimenta milhões de reais anualmente, seja recebendo valores a título de patrocínios, seja repassando as cotas para a exclusividade das transmissões televisivas do futebol nacional, das quais só abre mão para empresas menores quando a competição é de somenos importância.

Essa atividade é puramente econômica e impõe reconhecer, também, que os clubes destinatários das cotas televisivas têm a garantia fundamental de competirem em igualdade de condições, ou seja, têm direito à livre concorrência. Isso porque, mesmo não sendo juridicamente empresas, os clubes de futebol hodiernos possuem estruturas empresariais definidas, movimentam verbas milionárias e, mesmo que seus estatutos não prevejam, na prática realizam atividades empresariais como a negociação de planos de adesões de sócios, comercialização de jogadores, contratos de patrocínio, parcerias, o que significa dizer que as instituições, de fato, precisam almejar o lucro para sobreviverem sem a corda no pescoço.

Por conseguinte, a livre concorrência deve ser protegida inclusive no âmbito esportivo. A Constituição da República deve resguardar, assim, toda a atividade social nela prevista, como o esporte, fazendo incidir os princípios da livre concorrência e da igualdade.

A distribuição desigual de cotas – não apenas desigual, mas absurdamente desigual – portanto, diminui a equidade que deve nortear a competição e viola de morte a liberdade de oportunidades dos clubes, aniquilando a concorrência aos dois clubes de maior torcida do futebol brasileiro.

A Globo, com a sua prática, viola os dois princípios. E é em razão disso que o Ministério Público tem o dever de intervir, podendo promover um termo de ajustamento de condutas entre os clubes e a emissora que, no mínimo, almeje diminuir a diferença abissal de valores repassados por critérios inconstitucionais.

Trata-se de um quadro complexo, gravíssimo, e que precisa ser avaliado não somente pelas instituições prejudicadas, mas por toda a sociedade e pelos poderes constituídos, sob pena de que ocorram aqui os nefastos efeitos da polarização, como a que ocorreu na Espanha, por exemplo.

Sem uma intervenção estatal que imponha uma distribuição igualitária das cotas de TV – afinal de contas paga-se pelo direito de transmitir a competição, o que inevitavelmente inclui os clubes participantes, todos, sem exceção – o futebol estará fadado ao fim.

A riqueza dos clubes deve advir de suas receitas com patrocínios, vendas de jogadores, bilheterias, planos de associação etc. As verbas de direito de transmissão, nesse sentido, devem ser distribuídas de forma uniforme entre todos os clubes, não havendo justificativa plausível para que seja realizada de acordo com critérios estipulados de forma arbitrária, em detrimento da livre concorrência, e, por consequência, da igualdade que deve regular as atividades esportivas desenvolvidas pelas entidades, as quais envolvem, também, interesses econômicos protegidos constitucionalmente.

Sempre é bom lembrar que, mesmo que não se pretenda considerar a equidade – que deve ser privilegiada sempre - , outros critérios deveriam ser levados em conta pela emissora para regular a distribuição dessas cotas. Um deles, por exemplo, poderia ser a capacidade econômica do torcedor aferida por pesquisa idônea, uma vez que o que a empresa televisiva persegue é o lucro advindo da exposição de seus patrocinadores na sua transmissão e que seus produtos sejam consumidos pelos telespectadores. Isso porque, nem sempre a maior torcida é a que mais ou melhor consome.

Parece, porém, que não faz parte de seus planos considerar qualquer outra alternativa, seja a divisão igualitária, seja qualquer outra opção que retire de seus protegidos a hegemonia da preferência no recebimento dos direitos de transmissão e reduza a diferença de cotas entre os clubes.


Se nada for feito, e já, a “espanholização” será inexorável. E aí estará morto o futebol brasileiro, ou o que resta dele.

Créditos na imagem.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Obrigado, Fred.

Fred chegou ao Fluminense imaturo. Ele mesmo já admitiu isso. Contagiado pelo ambiente da cidade maravilhosa, seus primeiros anos no tricolor foram mais de festa do que de trabalho. Embora sempre tenha sido um jogador diferenciado, e importantíssimo na fuga do rebaixamento em 2009, as noitadas não lhe permitiram uma sequência em alto nível no time tricolor nos seus primeiros anos nas Laranjeiras. Fez muita falta à equipe em alguns momentos, nem tanto em outros.

Mas isso é passado. O Fluminense transformou Fred num novo homem. Reparem que eu não disse num novo jogador, disse novo homem. Hoje é um atleta muito melhor do que era em 2009 e, sobretudo, um homem muito melhor do que talvez já tenha sido algum dia em sua vida.

Em algumas oportunidades externei o meu pensamento sobre o jogador. Já o critiquei e o enalteci, já falei de sua importância para o clube e do investimento feito para que fosse mantido, mesmo após o término da parceria com a Unimed. Ele vale cada centavo.

Eu nunca falei, contudo, sobre o ser humano Fred. Por vezes, quando tratamos de futebol, o que importa é o desempenho do atleta dentro de campo. Ou seja, se é bom para o clube, nada significa o seu caráter, mesmo que seja péssimo.

Fred, portanto, além de craque, é bom caráter. É ídolo e porta-se como tal. Reinventou-se e cresceu espiritualmente dentro do Fluminense, humanizou o clube com a sua filantropia, com seu amor e respeito aos fãs, com seu cuidado e atenção com os jovens atletas de Xerém.

Hoje, Fred está ciente de que, como ídolo, deve ser exemplo a ser seguido. Não seria demais dizer que é um paizão para essa garotada carente de bons exemplos dentro do futebol.

Em entrevista logo após o jogo contra o Cruzeiro, o artilheiro demonstrou, através dos olhos encharcados e da fala embargada, o quanto ama o Fluminense, o quanto são importantes os meninos de Xerém, o tamanho de seu carinho por eles, o quanto é ídolo e o quanto é humilde.

Não imaginaria ouvir da boca de qualquer medalhão, que invariavelmente acredita ser mais importante do que o clube que representa, algo do tipo: “Agradeço ao clube pela oportunidade que me deu”. Certamente, em seu âmago, o medalhão se acha acima da instituição que o acolhe.

Já me disseram que o amor não se expressa por palavras, mas por atitudes. Então, acho que posso afirmar com bastante convição que Fred ama o Tricolor.

Não é qualquer jogador, principalmente do porte do nosso artilheiro, que diz: “Eu agradeço ao Fluminense pela oportunidade que me deu.”

Com essa afirmação, Fred foi humilde e, ao mesmo tempo, grandioso o bastante para reconhecer que é ele quem deve ao clube, que a instituição sempre será maior do que ele, que ele passa e ela permanece. Alguém poderia reconhecer essa atitude como um ato de pequenez. Ledo engando. Ser humilde é, antes de tudo, ser iluminado de espírito, ser magnificente.

E a sua magnificência reverbera nos seus companheiros, que o têm como exemplo a ser seguido. Isto é ser ídolo.

Quando os seus olhos se encheram de lágrimas e a sua voz embargou, Fred quis dizer muito além do que disse aos microfones dos jornalistas. Em verdade, ele disse que ama o Fluminense do fundo de seu coração, que Álvaro Chaves é a sua casa e que a torcida tricolor é a sua família.

Alguém poderia dizer que ele é muito bem pago para fazer o que faz, ao que eu refutaria dizendo que qualquer profissional normal se prestaria apenas a realizar o seu ofício, mas Fred, todavia, vai além, ele sente o Fluminense correr em suas veias, sofre e se enleva porque ambos são, hoje, indissociáveis, amálgama de amor, virtudes e glórias.

Fred é, assim, tão importante para o Fluminense dentro de campo quanto fora dele. Dentro, por sua liderança, seu faro de artilheiro e inteligência. Fora, por seu caráter, sua humildade e grandeza de espírito.

Que tenha longa vida no Fluminense, que continue a ser o exemplo a ser seguido pelos garotos de Xerém, que continue a ser o líder e artilheiro tricolor e que, acima de tudo, continue sendo o homem que é, digno, honrado, filantropo e altruísta.

É de homens como Fred que, mais do que o Fluminense, o mundo precisa para ser melhor.


Obrigado, artilheiro, por honrar e dignificar a cada dia o nome do Fluminense Football Club.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Deputado nota zero

Eu sou um tricolor seletivo. Depois do achincalhe público decorrente do episódio Lusagate, passei a filtrar certos textos ou mesmo declarações que maculem a honra do Fluminense. Evito, pois além de não desejar me aborrecer, tenho a firme convicção de que essas ofensas não são mais do que blasfêmias contra o meu tricolor.

E foi assim que evitei ler – uma vez que as redes sociais não nos permitem estar alheios a tudo – sobre o episódio do deputado Paulo Pimenta. Vi que a coisa teve repercussão, mas me controlei para não saber do que se tratava. Até imaginava, mas conferir in loco me faz muito mal.

De tanto que a notícia se espalhou, porém, foi inevitável o aborrecimento. E é este o assunto que, infelizmente, me faz escrever estas tão amargas e decepcionadas linhas.

Não posso, em sã consciência, demonizar o deputado. Apesar de ter sido infeliz, muito infeliz em suas declarações, sobretudo quando comparou o presidente da Câmara – deputado indiciado criminalmente por crimes de corrupção e autor de outros incontáveis malfeitos públicos – ao Fluminense, o parlamentar não agiu diferente de como agiria qualquer outra pessoa que não fosse torcedora do Fluminense ou lúcida o suficiente para não incorrer na estapafúrdida comparação.

Infelizmente, repito, a culpa não é apenas dele, devendo ser compartilhada com a imprensa leviana, desonesta e irreponsável que, durante anos, atribuiu a pecha ao Fluminense de clube useiro e vezeiro em práticas sorrateiras e imorais para se livrar dos rebaixamentos desde o longínquo ano de 1996.

O ponto culminante – se não houver outro futuramente – foi a maior fraude do futebol brasileiro ocorrida em dezembro de 2013, quando interesses financeiros e escusos relacionados ao C.R. Flamengo determinaram um novo rumo ao campeonato brasileiro daquele ano. A trama sórdida capitaneada pelo clube de regatas fez naufragar a nau lusitana para que pudesse ele próprio se salvar do iminente rebaixamento, trama esta que, por via de consequência, acabou garantindo a permanência do Fluminense na divisão principal, terceiro que nenhum envolvimento teve com a negociata.

A partir daí ressuscitou-se o estigma de “Rei do Tapetão” que, difundido e potencializado aos turbilhões pela pseudo-imprensa e, em época de redes sociais, formou uma legião incomensurável de ignóbeis títeres a repetir, transformando uma mentira em verdade, as maledicências que amiúde ouvimos desde aquele fatídico mês de dezembro de 2013.

O deputado Paulo Pimenta, em que pese a sua posição como autoridade parlamentar, é apenas mais um dentre essa turba manipulada por constantes sessões de mentiras fabricadas para dar ao Fluminense a condição de vilão do futebol brasileiro.

Repudio veementemente o que ele disse. Como torcedor, como tricolor, a minha vontade seria de processá-lo ou até de cometer injúria mais grave, se resolver problemas através da violência, fizesse parte de meu estilo de vida. Graças a Deus não faz.

Como disse, contudo, a culpa não é totalmente dele. A maior parte dessa culpa advém de quem formou a sua opinião. O restante decorre da sua ignorância.

Assim, eu só consigo enxergar uma única saída que fosse viável para minimizar essa condição que nos foi imposta pela mídia: que a investigação acerca do episódio Lusagate tivesse um termo e revelasse, de forma cristalina, os verdadeiros vilões dessa sórdida história.

Afora isso, nada do que se falar ou fizer retirará essa marca, que parece indelével, de nosso currículo. Uma injustiça perpetrada por anos e que só poderá ser removida por ação da mesma imprensa que a criou.

E o Fluminense, poderia fazer alguma coisa? Uma nota de repúdio contundente talvez fosse a única reposta viável, porque, como se sabe, o parlamentar, no âmbito do exercício de suas funções legislativas, possui imunidade material, ou seja, não pode ser processado por suas opiniões, palavras e votos.

E a torcida? Como tricolor – o verdadeiro – gaúcho quase não deve existir, nem adiantaria sugerir o boicote a uma eventual candidatura futura do deputado. Assim, parece-me que encher o seu correio eletrônico possa ser considerado um desabafo justo contra o insulto que extrapolou os limites da instituição Fluminense e atingiu cada um de nós. Embora sejam os seus assessores os destinatários dos “desabafos”, por certo o deputado terá ciência de que foi profundamente injusto e infeliz nas suas palavras.

E eu? O que eu faria? Eu remeteria ao deputado Paulo Pimenta o livro do escritor Paulo Roberto Andel, “Pagar o quê?”, com a seguinte dedicatória:


Nobre deputado, este livro é um presente sincero de um tricolor que lhe roga encarecidamente a leitura, que abrirá os seus horizontes, contribuindo para o afastamento da sua ignorância e para a descoberta da verdade; não da verdade que a mídia lhe impôs, mas daquela que ela fez questão de lhe ocultar. Ao terminá-lo, o senhor constatará – por mais que não deseje revelar isso a ninguém – que o Fluminense Football Club, em seus mais de cem anos de história, tem muito mais honra e dignidade do que a Casa que o senhor atualmente representa.”