domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sobre a torcida única nos estádios

A pedido do Ministério Público, o juiz Guilherme Schilling decidiu, em caráter liminar, é bom que se diga, que os clássicos regionais daqui por diante só poderão ter uma torcida. A manifestação do MP estadual foi motivada pelos graves confrontos ocorridos no último clássico entre Flamengo e Botafogo, cujo saldo foi de oito pessoas baleadas, sendo uma morta e duas gravemente feridas. Na verdade, a violência desmedida entre torcidas organizadas naquela partida foi apenas a gota d`água para a adoção de uma medida que já vinha de desenhando há tempos e, inclusive, já fora adotada em São Paulo e Minas.

Trata-se, todavia, de uma medida simplista, uma resposta pronta à sociedade e à mídia que clamavam por um basta nessa onda de violência que assola os estádios e seus arredores em dias de grandes jogos. O Poder Judiciário, chamado a intervir, não pode se omitir e foi por isso que o juiz decidiu.

A proibição de jogos com duas torcidas em clássicos retira a responsabilidade estatal e a transfere ao torcedor, uma vez que é dever do Estado zelar pela segurança do público que vai a uma partida de futebol. A questão, assim, é de segurança pública e se afasta do âmbito desportivo. Torcedores organizados que praticam crimes são menos torcedores que criminosos e devem ser tratados como tais, inclusive sendo alvo das políticas de segurança do Estado e dos órgãos de persecução penal.

A Justiça, com essa decisão de cunho proibitivo, na verdade retirou um grande peso das costas de um Estado que é ineficiente naquilo que é sua obrigação primeira: garantir a segurança e a liberdade de ir e vir de seus cidadãos. E, consequentemente, ajudou a por mais pá de terra num futebol moribundo, cujos romantismo e glamour se esvaem à medida que o Maracanã também se deteriora.

Qualquer estudioso de segurança pública e, mais especificamente da infiltração das organizações criminosas relacionadas ao tráfico de drogas nas torcidas organizadas, poderá dizer com mais propriedade que a solução para a violência entre as torcidas não passa nem de perto pelo que decidiu o nobre magistrado. A prova cabal e mais recente disso foi a brutal tentativa de homicídio que vitimou o torcedor tricolor Pedro Scudieri, que voltava para sua casa após um jogo do Fluminense contra a Portuguesa. Ou alguém pode imaginar que os agressores tenham sido torcedores do clube da Ilha do Governador?

Torcidas organizadas, não é de hoje, marcam seus confrontos pela internet. Na falta de um serviço de inteligência eficaz, porém, adota-se a resposta óbvia e inócua que, a bem da verdade, nada resolverá e apenas desincumbirá o Estado de sua função que é garantir a segurança de sua população.

Se quisessem realmente resolver o problema, ou pelo menos minimizá-lo, deveriam seguir nossas autoridades o exemplo inglês. Lá, o gravíssimo problema dos hooligans foi praticamente solucionado quando todos os times ingleses foram obrigados a instalar em seus estádios sistemas de monitoramento por câmeras, a fim de que a polícia pudesse realizar um pente fino à procura de torcedores brigões. Localizado o torcedor indesejado, é imediatamente retirado do estádio. Além disso, há sempre um policial escalado para estudar o comportamento dos torcedores de cada clube profissional inglês, cujo relatório de informação ajuda na identificação dos torcedores mais perigosos.

Brasil não é Inglaterra, mas parece óbvio que um trabalho de inteligência policial bem desenvolvido pode ajudar a antecipar as ações desses criminosos, possibilitar suas prisões e evitar mortes. Não obstante, o Ministério Público e o Judiciário devem tratar os crimes praticados por esses vândalos com a gravidade que merecem, responsabilizando hordas de torcedores brigões como verdadeiras associações criminosas, o que afastaria, nesses casos, a competência dos Juizados Especiais Criminais que cuida apenas de delitos de menor potencial ofensivo e que nem mesmo ensejam a prisão.


Mas, ao invés de agir para resolver o problema, preferiu-se a saída mais fácil e menos onerosa para o Estado: a torcida única. Com essa decisão mata-se o futebol, mas não se mata o problema.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Abel Braga

Abel Braga já vinha reclamando do calendário de jogos neste início de temporada. Sem dizer claramente, podia-se ler nas entrelinhas que a sua irresignação era com a Primeira Liga. Abelão prefere o campeonato carioca. Decisão dele, da qual particularmente discordo, mas respeito.

Todo treinador tem suas manias e teimosias e Abel não foge à regra. Poderia ter poupado o time no campeonato carioca, competição em que o Flu já está classificado para a próxima fase. Não o fez de propósito, porque queria mostrar que o que lhe incomoda é a Primeira Liga.

Não discuto o mérito da sua decisão. Ele é o treinador e é regiamente pago para planejar e executar o que for melhor para o time. Assume os ônus e os bônus de suas decisões e deve ser cobrado ou celebrado por isso.

A derrota para o Internacional não foi boa para o Flu. Nunca é, mas penso que pelo menos uma constatação deve ter tido Abelão: o Fluminense não possui um elenco para disputar as principais competições nacionais. Tanto é que o planejamento Tricolor  que previa grupo fechado para o primeiro semestre, já está sendo reformulado. Pelo menos um novo reforço deve chegar ao Flu em breve.

Apesar de seu jeito simples e espontâneo, às vezes espontâneo e sincero demais, Abelão é um treinador que fala a linguagem do jogador, agregador e, sobretudo, um vencedor. Chegou ao Flu e apenas na conversa e com três reforços, mudou da água para o vinho uma equipe em que ninguém mais confiava.

É isso o que torcedor tricolor espera: uma equipe competitiva, aguerrida, vencedora. Talvez por isso as primeiras críticas após a derrota para o Internacional. Não pela derrota propriamente dita, mas pelas más lembranças de 2016. Quando o tricolor já vinha se acostumando a uma nova rotina de vitórias, o malogro foi uma ducha de água fria, principalmente porque o time colorado é muito fraco, dando a sensação, a quem assistiu à partida, de que o nosso time titular poderia vencê-los até com certa facilidade.

Além da quebra da boa sequência de vitórias, perder para o Inter talvez não traga consequências maiores. O Flu deverá se classificar na Primeira Liga, isto é, se Abelão entender que deve jogar de agora em diante com força máxima. Todos já entendemos que ele não aprova a competição que o Flu ajudou a criar, mas já chega. Ou a disputa seriamente ou não disputa mais.

Abelão, a meu ver errou pela primeira vez nessa nova passagem pelo Flu. Errará outras, mas para se avaliar o seu trabalho será preciso sopesar seus erros e acertos, ponderá-los e ao fim constatar o que prepondera.

De qualquer forma, Abel Braga não é homem de fugir das divididas. Se realmente continuar a preterir a Primeira Liga, deverá arcar com as consequências, especialmente se o Flu não conquistar o carioca, competição em que aposta as suas fichas.


Abel é o melhor que podemos ter no momento, é o responsável pela nova “cara” do Flu nesse início de temporada e merece toda a confiança da torcida tricolor, o que não me impede, nem a nenhum tricolor, de criticá-lo quando errar. E aí está, diferentemente de muitos treinadores, uma outra virtude de Abel: a de assumir seus erros e aprender com eles.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Humildade e luta

Após o jogo contra o Resende, fiz uma pequena brincadeira: “Com mais dois Orejuelas e mais  dois Sornozas fechamos o grupo e ganhamos tudo este ano. Com seis equatorianos não vai ter para ninguém.” É claro que a metáfora conota a evidente qualidade técnica dos dois reforços tricolores, mas exageros à parte todos sabemos que, apesar do bom começo, teremos um ano difícil pela frente.

A dificuldade estará principalmente em manter o equilíbrio do time quando não se tem um elenco capaz de suportar o desgaste das longas competições que se apresentarão durante o ano, sobretudo o campeonato brasileiro. A alma que Abel Braga deu ao time é suficiente para vermos uma equipe brigadora o tempo inteiro, mas sem um elenco mais qualificado, lesões, convocações e outros intercorrências podem desfalcar o Flu de suas peças mais importantes.

Temos alguns jogadores da base que podem ajudar. E estão ajudando, mas para almejarmos com chances reais que conquista alguma competição, o Flu precisará estar sempre no limite e precisará de ajuda também de fora das quatro linhas.

É por isso que além da presença da torcida, cujo apoio será fundamental na temporada, vejo com grata satisfação o retorno de um dos mais capacitados profissionais da medicina ao Fluminense. Independentemente de posições políticas, o Presidente Abad agiu como se deve agir quem tem o Tricolor como prioridade, trouxe o Dr. Michael Simoni para a função de diretor do Departamento de Saúde. Mais um reforço de qualidade que muito contribuirá para que nossos profissionais, dentro de campo, tenham toda a tranquilidade para desempenhar suas funções.

Os melhores nomes tricolores têm que fazer parte da gestão e, ao que parece, o Presidente tem isso como princípio: vaidades de lado, o que importa é e sempre será o Fluminense.

Ponto para Abad. Outro golaço foi a contratação de uma auditoria qualificada para examinar as contas tricolores. Medida acertada e prudente, que dará à nova Administração a exata dimensão dos erros e acertos da gestão anterior e mostrará o que deve ser corrigido e trabalhado. Além disso, possibilitará a responsabilização de quem por dolo ou culpa agiu contra os interesses do clube ou lhe trouxe prejuízos. Começar o trabalho com a casa em ordem é tudo de que o Flu precisa para poder seguir em frente sem as amarras do passado.

Vida nova para o Fluminense. Começar com o pé direito nos gramados e fora dele é um bom sinal, sinal de que mesmo com um orçamento enxuto, mas com um grupo engajado e uma administração focada nos interesses do clube, algo de bom pode acontecer.


Se não conquistarmos um título, teremos lutado. E o Fluminense deve ser assim, um time guerreiro que luta até o fim por seus objetivos. O resto é consequência.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Até onde podemos ir...

Com um orçamento enxuto e dívidas enormes, o Fluminense foi o clube que menos contratou – quando comparados aos seus rivais cariocas – para a temporada de 2017. Manteve praticamente a base que foi profundamente ineficaz em 2016.

Mas trouxe Abelão, que chegou dizendo que daria alma ao time. Trouxe Lucas, Orejuela e Sornoza.

Antes do primeiro jogo contra o Criciúma, eu havia dito que o Flu não tem elenco para ser campeão, tem apenas um time na conta do chá. Afirmei, ainda, que poderíamos ter alguma chance de levantar um caneco ou conquistar uma vaga para a Libertadores se Abel fizer o grupo de 2016 realmente resgatar sua alma, se os equatorianos se adaptarem e funcionarem bem e se a base que for convocada para ajudar realmente ajude. São muitos requisitos que devem estar presentes cumulativamente para que o tenhamos um ano minimamente feliz.

Reitero o que disse. O Fluminense só terá alguma chance se tudo isso acontecer.

Mas eu não quero ser pessimista. Na verdade, como disse na última postagem aqui no Panorama, sou um realista esperançoso, então posso afirmar que tudo isso aconteceu na partida contra o Criciúma: Abel resgatou a alma dos renegados de 2016 – vide Dourado, que embora não tenha marcado um gol, foi outro jogador; participativo, esforçado e solidário – os equatorianos foram muito bem – Sornoza, um jogador que, para a estreia, foi acima da média. Deu bons passes, jogou verticalmente, se deslocou com inteligência; Orejuela, jogando mais atrás, não errou um passe; a base funcionou bem quando foi convocada: Pedro fez um golaço e Lucas Fernandes entrou com muita personalidade.

Além disso, o que me chamou a atenção foi o preparo físico dos jogadores. Para a primeira partida oficial da temporada, o ritmo foi intenso e ninguém cansou.

O ponto negativo foi o calcanhar de aquiles do Flu nos últimos anos: a defesa, posição que Abelão conhece muito bem e deve trabalhar para corrigir as falhas do primeiro jogo.

O Flu, portanto, se houve bem na primeira partida, mas é preciso que todos os fatores que elenquei continuem harmonicamente conjugados e presentes nas próximas partidas do Tricolor. Com um ano longo pela frente, todos sabemos que isso será difícil de acontecer, malgrado ninguém espere que o Flu seja campeão de tudo, embora deseje. É nossa obrigação sonhar. Se a alma Tricolor resgatada por Abel, contudo, for a tônica de sua equipe durante a temporada, não tivermos as ausências dos equatorianos por longos períodos de tempo, os garotos da base continuarem sendo efetivos e as falhas defensivas forem corrigidas, seremos pelo menos competitivos, o que já seria um alento diante da crise financeira que assola o clube.

Contra o Vasco, adversário de maior envergadura, o Flu poderá dizer se a vitória contra o Criciúma foi mera obra do acaso ou se realmente Abel já começou a dar nova alma aos seus comandados. A minha opinião é a de que o Fluminense já tem uma cara nova, mas precisará da conjugação de todos aqueles fatores, em pelo menos uma das competições que disputar, para que a torcida possa comemorar algo.


E se dentro de campo o Flu precisará jogar no limite e ser sobretudo competitivo, fora dele a torcida terá papel fundamental para impulsioná-lo às vitórias. Uma pena, porém, que não há perspectivas otimistas de termos o Maracanã brevemente, palco eterno da torcida tricolor.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Bem-vindo 2017

“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.” Escolhi esta frase do saudoso Ariano Suassuna para marcar o meu início de 2017. Confesso que desde o fim do mandato do ex-presidente Peter estes foram os meus sentimentos em relação ao Fluminense. Primeiro, o otimismo com a assunção do novo presidente, Abad, e a perspectiva e esperança de reconstrução de uma equipe que não funcionou em 2016; segundo, o pessimismo, ao perceber que não seria bem assim: além de Abel, vieram apenas os equatorianos Orejuela e Sornoza e o lateral Lucas, muito pouco para um Fluminense que precisa almejar títulos novamente; por último, o realismo esperançoso, a resignação do “é o que temos, então vamos com isso”.

A nova administração, embora muitos acreditem não ser tão nova assim, encontrou um passivo enorme de jogadores mal contratados, verdadeiros estorvos com salários elevados e que mostraram qualidade insuficiente para envergarem a camisa tricolor. Uma limpeza foi feita, mesmo que, em alguns casos, o clube tenha se desonerado menos do que gostaria. Responsabilidade de quem contratou mal e onerou um clube com as finanças já combalidas.

Diante do quadro encontrado, de despesas que não poderão ser totalmente eliminadas, restou ao Flu contratar pouco, pouquíssimo por sinal. Os equatorianos parecem ser uma boa aposta, Lucas, porém, uma incógnita. Para um clube que precisa pensar em títulos é pouco ou quase nada, sobretudo quando se sabe que é normal que nem todos os novos contratados emplaquem.

Aí, sem os reforços esperados, sobretudo para posições carentes como o ataque, as laterais e a defesa, surge o argumento de que se investirá na juventude, na rapidez, mesclando o antigo grupo, com os parcos reforços e jogadores da base.

O Fluminense não deu certo em 2016, repito, e a equipe basicamente foi mantida. Para que funcione como merece em 2017, os reforços e a base precisam deslanchar e Abel precisa fazer mágica, pois terá no máximo um time, mas não terá uma equipe qualificada durante toda a temporada.

Não creio que os dois Henriques estejam à altura de serem titulares desse time. São fragilíssimos. E ainda acho Leo um jogador que serviria para ser, no máximo, reserva. A zaga deveria ser composta por Renato Chaves e Nogueira, o melhor que temos, mas ainda uma defesa que não está à altura das tradições do clube. E o ataque, me parece que só se prestará a algo se Richarlisson justificar o investimento que foi feito. Do Dourado nada espero (que eu queime a língua).

Há nomes como Marquinhos Calazans, Pedro, Danielzinho, base tricolor que pode ajudar, mas não imagino que sejam a solução, pelo menos imediatamente.

Por outro lado, parece que teremos um meio de campo mais forte, o que é importante tanto para municiar o ataque, quanto para proteger a defesa.

O Flu pisa em 2017 como o clube carioca que menos se reforçou. Já houve outros anos, porém, em que contratou demais e nada deu certo. Estará nas mãos de Abel Braga o destino desse grupo, que entra como verdadeiro azarão, sem qualquer glamour, mas como disse o próprio treinador, com alma nova.

Se o Fluminense der o sangue dentro de campo todo esse realismo se converterá em esperança e a esperança, quem sabe, numa vaga para a Libertadores ou num título.


Hoje, parodiando Suassuna, não sou um pessimista nem um otimista, sou um realista esperançoso. Amanhã, eu só quero ser campeão.

domingo, 20 de novembro de 2016

Respeito eleitoral

Confesso que ainda não digeri os efeitos dessa campanha eleitoral para a presidência do Fluminense. Muita roupa suja lavada, ofensas, bloqueios e outras condutas pouco civilizadas dão o tom desse período pré eleições.

Talvez seja porque pela primeira vez o pleito tricolor ganhará um alcance muito maior que os anteriores, com a participação dos sócios-torcedores e, também, em razão do eficaz instrumento de propagação de ideias e, infelizmente, violências, chamado internet.

Tenho amigos que apoiam os, agora, três candidatos e nunca me indispus com qualquer deles, mas percebo, da distância que guardo de tudo isso, que são muito frequentes os casos de agressões entre partidários das candidaturas. E isso ocorre por três motivos: primeiro pela falta de argumentos; segundo, porque ainda existe a falsa crença de que por detrás de um teclado se é invisível e, terceiro, pela falta de educação.

Pode parecer um clichê, mas quando candidatos concorrem a qualquer cargo, até o de síndico, é preciso debater ideias. Todos os concorrentes à presidência do Fluminense têm suas plataformas expostas em suas páginas e sites de campanha, mas não consigo perceber, ou raramente consegui, partidários de uma ou de outra candidatura discutindo os exatos termos dessas plataformas, comparando-as e até mesmo criticando-as através de argumentos sólidos.

Basicamente, tem-se procurado desconstruir o concorrente trazendo à tona suas mazelas pessoais ou profissionais, ou seja, o lado negativo de cada um tem sido elevado à quinta potência, enquanto o que cada um tem de bom – e deve haver algo de bom – é relegado ao ostracismo.

Talvez essa seja uma tática da política, jogo que ainda não aprendi a jogar, embora reconheça a sua importância, mas de toda a sorte, para o eleitor verdadeiramente preocupado com os rumos do Fluminense, o que deveria importar são as propostas que poderão retirar o Tricolor desse mar de mediocridade em que está mergulhado há quatro anos.

Antes que digam que só vejo o lado ruim desta Administração, qualquer consulta aqui mesmo no Panorama Tricolor revelará o contrário. Há muito o que ser comemorado na gestão Peter, mas a sua preocupação com o futebol foi um ponto negativo num quesito que tem peso três.

Mas falar desta gestão não é o propósito desta coluna. Meu intuito é dizer que as eleições se aproximam e que toda essa violência virtual que descamba para o ódio e que, invariavelmente, põe em trincheiras contrárias tricolores que até bem pouco tempo estavam comemorando juntos vitórias do Fluminense, só tem uma consequência: destruir laços de afeição e amizade que poucas torcidas podem se orgulhar de ter.

Não há mais tempo para que isso seja corrigido, e, mesmo se houvesse, talvez não pudesse sê-lo, porque o ser humano é estranho quando é contrariado. Dificilmente sabe ouvir argumentos contrários e, quando não há argumentos para defender seu ponto de vista, simplesmente ataca como uma forma de defender-se de uma agressão que não houve. Um complexo de perseguição quase esquizofrênico que se transforma em ódio  por qualquer palavra mal compreendida ou qualquer argumento que não se possa refutar com outro argumento.


O que eu posso esperar, portanto, é que no dia 26 de novembro o torcedor possa fazer a sua escolha com consciência, baseado nas melhores ideias e no potencial que o candidato terá para desenvolvê-las, mas, sobretudo, que todos sejamos, em espírito, tricolores novamente.

domingo, 13 de novembro de 2016

Um treinador vencedor em 2017

A seleção brasileira tem sido um claro exemplo de como um treinador pode fazer a diferença para o bem ou para o mal. A mudança de uma única peça deu nova vida a uma equipe que corria sério risco de não se classificar para a próxima Copa do Mundo e já vinha colecionando uma série de malogros, sendo o mais emblemático e vexaminoso a sonora goleada para a Alemanha em 2014.

Daí que sempre tive a opinião de que um treinador deve ser sempre a peça primordial na montagem de uma equipe e a sua escolha cercada de redobrados cuidados.

Nunca deveria ser, para um time da grandeza do Fluminense, um profissional que se escolhesse à revelia de critérios técnicos, de uma reputação vitoriosa. Basear sua contratação na sua folha de pagamento é dar um tiro no escuro.

Foi assim, de uma forma totalmente antiprofissional, que o Tricolor trouxe para o seu comando do futebol nomes como Cristóvão Borges, Ricardo Drubscky, Enderson Moreira e Eduardo Baptista para gerir equipes que, se não eram o sonho de consumo da torcida, tinham nomes de respeito que, bem comandados, poderiam ter apresentado resultados muito melhores do que os que foram colhidos.

Cansado da mesmice e da mediocridade, a atual gestão tricolor resolveu mudar sua estratégia e focar num nome que, pelo menos, tivesse uma reputação dentro do futebol, nada de muito glorioso, mas infinitamente superior aos currículos de seus antecessores.

E então, após a preferência da torcida apontar para Cuca, alguma diferença nos pedidos salariais direcionou a pretensão da gestão tricolor para Levir Culpi.

Nada de muito especial, mas um alento para o torcedor cansado de tanta incompetência. Mesmo estando num patamar bem acima de seus companheiros de profissão, Levir, porém, não participou da escolha do elenco nem da pré-temporada, pegando, como se diz, o bonde andando.

Contudo, poderia ter feito mais. Sempre pareceu desinteressado e alheio às necessidades de uma renovação no elenco. No começo, pediu reforços, e esses vieram em quantidade, mas em qualidade bastante discutível, e Levir, assim, deixou de tocar no assunto. Resignou-se com a realidade do clube e preferiu acomodar-se ao seu gordo salário e deixar o tempo passar.

Foi exatamente o que disse ao repórter quando respondeu a uma pergunta sobre o motivo pelo qual veio para o Fluminense: “pelo salário”. Embora possa ter parecido mais uma das bravatas e gracejos do treinador, foi a mais pura expressão da verdade.

A única nota relevante de Levir no Flu, além da título da Primeira Liga, cuja competição já pegou em andamento, foi o imbróglio com Fred. Quando fizeram as “pazes” escrevi que a trégua era temporária, que tudo parecia uma grande encenação e, infelizmente, não deu outra. Na primeira oportunidade que teve, Fred saiu, perdemos um líder e um artilheiro e permanecemos com um treinador de quem se esperava que colocasse a equipe nos trilhos, que unisse o grupo e trabalhasse duro por títulos.

Nada disso ocorreu. Desde então, o Flu foi sempre menos do que fora até então. Teve oportunidades na Copa do Brasil e no Brasileiro e nunca demonstrou ambição de conquista a exemplo de seu desinteressado técnico.

Poucos treinos, bravatas, piadas sem graça, más escolhas, más mudanças, más estratégias. Esta foi a realidade de Levir no Flu, onde mostrou menos profissionalismo que o desejo de ver passar o tempo e engordar sua conta bancária.

Agora, sem ele, quando o leite parece definitivamente derramado, Marcão assume interinamente o time para tentar nessas últimas quatro rodadas fazer o que Levir abriu mão de fazer, seja pela incompetência, seja pelo desinteresse: levar o time à Libertadores.

Quem sabe Marcão não provoca no grupo um sentimento de renovação e motivação, suficiente para dar à torcida em belo presente de fim de ano, presente que nem o time nem a diretoria merecem, por tudo o que não fizeram pelo Fluminense. Quem sabe Marcão, guardadas as devidas proporções e a sua condição de interino, não dê à equipe a vida que Tite deu à seleção nacional, transformando um bando perdido em campo num grupo coeso e ambicioso.

Em quatro jogos, Marcão terá a chance de deixar seu nome mais uma vez marcado na história do Flu, e ninguém melhor que ele, neste momento, para cumprir essa gloriosa missão.


E se almejamos um grande time em 2017, que o vencedor do pleito de novembro adote como primeira medida no âmbito do futebol a contratação de um treinador verdadeiramente vencedor. É a partir daí que se forja uma equipe vencedora.

domingo, 6 de novembro de 2016

Respeito e eleições

O Fluminense vive um momento de acirrada disputa política que antecede o pleito de 26 de novembro, data em que será escolhido o seu próximo presidente pelos próximos três anos.

O colégio eleitoral tricolor, ampliado desde que foi garantido ao sócio-torcedor o direito de voto, sem exagero, supera o de muitas cidades no interior do Brasil, o que garante uma participação mais democrática do torcedor na escolha da nova gestão do clube.

As quatro candidaturas – Cacá Cardoso, Celso Barros, Mário Bittencourt e Pedro Abad – também conferem um ar de eleições que se comparam aos pleitos a que estamos acostumados quando escolhemos nossos representantes no Executivo ou no Legislativo.

Infelizmente, contudo, toda essa grandiosidade conferida ao pleito tricolor também o aproxima das principais mazelas das eleições políticas do país: hostilidades entre candidatos e correligionários, bravatas, rancor, pouco debate de ideias e o baixo nível das campanhas.

Guardadas as devidas proporções, é claro, esse ambiente pouco saudável tem contaminado torcedores adeptos das candidaturas, cabos eleitorais e outros interessados e gerado um clima conflituoso que não combina com a disputa que deveria ser exclusivamente fulcrada no debate de ideias e argumentos.

Diferentemente dos pleitos eleitorais para cargos executivos e legislativos, onde o antagonismo exacerba-se, por vezes, ante as profundas diferenças de pensamento político e doutrinário dos candidatos, provocando raivosas contendas entre seus seguidores, a disputa eleitoral para a presidência de um clube de futebol deveria pautar-se apenas pela divergência de ideias, uma vez que todos, invariavelmente, seguem a mesma doutrina: a doutrina tricolor.

O objetivo comum dos candidatos à presidência do Fluminense Football Club é, presume-se, engrandecer o clube. Todos são torcedores apaixonados pelo Tricolor, portanto, todas as plataformas almejam o mesmo fim, mas por caminhos diferentes.

É nesse sentido que o respeito mútuo deveria nortear os debates entre os adeptos de uma ou outra chapa e as próprias manifestações dos candidatos. Não apenas o respeito entre si, mas sobretudo o respeito ao torcedor, destinatário de suas mensagens. Promessas vãs, bravatas, não devem ser lançadas irresponsavelmente somente com o objetivo de angariar votos, afinal de contas, o maior prejudicado por essas condutas será o próprio Fluminense, que não será aquele prometido na campanha eleitoral.

Todos os torcedores, e também os candidatos, desejamos um Fluminense maior, vitorioso, autossuficiente, o que naturalmente ensejaria o nascimento de uma candidatura única que reunisse os melhores quadros para compor a próximas administração.

Não foi assim, porém. Os melhores quadros estão divididos entre os quatro candidatos que pretendem, por suas próprias convicções, chegar à presidência do clube. Essa diversidade, por outro lado, pode ter um ponto positivo: dar ao torcedor a oportunidade de escolher a melhor proposta para a gerência do Flu nos próximos três anos.

De uma forma ou de outra, a campanha está aí, efervescente, com quatro candidatos que, do seu jeito, pretendem o melhor para o Fluminense.

Diante disso, aceitei todos os convites que recebi para curtir páginas de candidatos. Fui às explanações que me foram possíveis, assisti às suas entrevistas e curti, quando me agradaram, postagens de todos, indistintamente. Fiz o que achei que deveria fazer para conhecer melhor as propostas de cada um, sem rancor, sem preconceitos.

Evidentemente, já tenho o meu escolhido que, se vitorioso, seja aquele que conduzirá o Tricolor aos mais elevados patamares do futebol nacional e internacional.

Deixo aqui, então, minha sugestão para esta reta final de campanha: que os indecisos escolham com consciência, que os que já se decidiram respeitem as decisões alheias e que no dia 26 de novembro a vitória de um candidato não signifique a derrota dos demais, porque estaremos todos, sempre, do mesmo lado da arquibancada.


E, por fim, que a retidão moral e a grandeza de espírito do presidente Sylvio Kelly, cuja perda nos faz doer o coração tricolor, norteie os passos de quem assumir a gloriosa missão de conduzir os destinos do Fluminense Football Club pelos próximos três anos.

domingo, 30 de outubro de 2016

O último erro

Tenho insônia todas as vezes que o Fluminense joga partidas como essa que jogou contra o Vitória. Nunca pelo placar, mas pela forma como a equipe se apresenta em campo. Passo algumas horas matutando, digerindo meu ódio interno, sentindo minha boca amarga, até que o sono, de tanto bater à porta, consiga entrar.

Ultimamente, porém, o Tricolor não me tem feito perder noites de sono com tanta frequência. Creio que tenho retribuído a sua indolência dentro de campo com uma certa resignação, afinal de contas, estava escrito desde o fim da temporada passada que este ano não daria certo.

A Primeira Liga foi a primeira impressão que não ficou, um título que não retira o Fluminense de onde está, mergulhado num tremedal de incompetência. Foi bom, gritamos “é campeão”, levamos gás lacrimogêneo nos olhos e só.

No estadual e nas competições nacionais mais importantes, malogramos.

A escolha de Levir, depois de uma sucessão de “bons, bonitos e baratos”, me pareceu acertada diante da situação financeira do clube. Um treinador de verdade, pelo menos isso. Eu mesmo o defendi, relevando erros e teimosias que um treinador moderno não poderia praticar.

Levir, enfim, foi uma tentativa válida que deu errado. Mas deu errado porque o seu antecessor foi uma escolha equivocada, porque assumiu a equipe após a pré-temporada, não participou da escolha do elenco. Não há planejamento que suporte tantos equívocos.

É provável que Levir, mesmo se tivesse tido todas essas oportunidades, cometesse os mesmos erros que comete agora no comando do Fluminense, mas as chances disso acontecer certamente seriam menores. Levir é, assim, o produto final de uma sucessão de equívocos potencializados, agora se vê isso nitidamente, por sua falta de competência para comandar um clube como o Fluminense.

Um time medíocre como esse que veste a camisa tricolor talvez não pudesse ser salvo por nenhum outro treinador em atividade no futebol brasileiro, mas talvez esse treinador ousasse a ponto de barrar os irrecuperáveis e exigisse reforços à altura do que se espera para formar um grande time. E quem sabe, fosse menos teimoso e mais dedicado aos treinamentos.

Levir Culpi foi o último erro – espera-se – de uma Administração que relegou o futebol a segundo plano. Reconheço o seu valor no que concerne a outros aspectos, sobre os quais já discorri exaustivamente em outras oportunidades, mas a desídia com que tratou o carro-chefe do clube é quase um crime de lesa-Fluminense.

Em novembro conheceremos nosso novo presidente e que seja verdadeiramente novo em ideias e atitudes. Está nas mãos do torcedor mudar o destino do clube e, para tal, independentemente de quem escolha como candidato, é preciso que o faça com conhecimento de causa, avaliando as propostas e, sobretudo, os nomes que eventualmente participarão da nova gestão.


A torcida está cansada da mesmice a que foi relegado o clube nos últimos quatro anos, está cansada de torcer para o ano acabar para que se renovem as esperanças no ano vindouro, está cansada de traçar objetivos de 45 pontos, está cansada de não estar na Libertadores. O Fluminense é muito maior do que isso e está nas mãos do torcedor mudar o fim dessa história. Votemos com consciência, liberdade e amor ao clube.

domingo, 9 de outubro de 2016

As metades de Peter Siemsen

Peter Siemsen dá seus últimos passos no comando do Fluminense Football Club. Em novembro, elegeremos um novo presidente no mais democrático pleito que a história do clube já presenciou. Os sócios-torcedores, com mais de dois anos de contribuição – e eu me incluo entre eles – poderemos exercer plenamente a cidadania tricolor.

Esse parágrafo inicial seria apenas um sonho, porém, se a democratização nas eleições presidenciais do Fluminense não tivesse sido planejada e implementada pelo próprio Peter.

Escrevi há mais de um ano, quando a disputa eleitoral embrionariamente se desenhava, que os então eventuais candidatos deveriam tratar a disputa com respeito recíproco e, sobretudo, respeito maior ao Fluminense. O Fluminense está acima de todos.

E isso inclui ser honesto nas opiniões, reconhecendo valores positivos nos seus adversários. Bater por bater, criticar sem argumentos é mesquinho e chega a ser vil, quando se tem por trás a ambição de ocupar o mais alto cargo na hierarquia Tricolor.

Peter cuidou de Xerém como se cuida de sua própria casa, transformando um abrigo sujo e mal administrado num centro de excelência e referência das divisões de base no Brasil. E é de lá que abastecemos nossas equipes e ainda fazemos dinheiro para sobreviver em tempos difíceis. E ainda temos um CT de primeiro mundo, sonho antigo que faz o Fluminense pisar definitivamente na modernidade, tornando-o ainda maior. Foi Peter, também, quem nos deu sobrevida após a saída da Unimed, quando nove entre dez “entendidos” de futebol previram o nosso fim. Administrou e escalonou dívidas, obteve certidões negativas fundamentais para que possamos estar aptos à obtenção de patrocínios e sobreviver ao PROFUT.  E quanto à internacionalização da marca, tratou o tema com pioneirismo, levando o Fluminense para o centro da Europa através da compra do STK Samorin, o Flu-Samorin. Não olvidemos, também, do Projeto Guerreirinhos, com filiais em diversos estados e até no exterior, que também se propõe à valorização e difusão da marca Fluminense e cujos frutos serão colhidos pelo clube muito em breve.

Peter foi um administrador zeloso e responsável, o que não o impediu de ter cometido erros. Esta  foi a metade boa de sua Administração.

Por outro lado, foi imperdoável como tratou a repercussão do caso Flamenguesa, quando deixou à própria sorte, alvos das iras nas redes sociais e nas ruas, muitos tricolores que, de forma independente, defenderam a honra do clube. A sua omissão foi quase criminosa e, por pouco, não terminou numa tragédia.

Ao se calar, deu passe livre para a imprensa nos bombardear com infâmias manipulando a opinião pública para que acreditasse que o Fluminense era, mais uma vez, o grande vilão do futebol nacional. Este foi um dos maiores equívocos de seu mandato.

O outro foi o futebol. Suas escolhas para o departamento de futebol do clube jamais foram as mais acertadas e sua Administração pecou pela falta de comando nos momentos em que era preciso ser firme. Levemos em conta o baixo orçamento, sobretudo após a saída da Unimed, mas ainda assim temos exemplos próximos de clubes semifalidos que conseguem montar times aguerridos com baixo orçamento. E crises internas, complôs, panelinhas covardes poderiam ter sido evitados.

Quatro anos de insucessos para o torcedor foi um terrível pesadelo, especialmente quando já estava se acostumando a novamente ser referência nacional e a participar com qualidade das competições sulamericanas.

Parece claro que Peter entendeu que era mais importante cuidar de outros assuntos e relegou o futebol a segundo plano. Futebol é o carro-chefe do Fluminense e delegá-lo a ineptos foi um erro crasso.

Uma boa administração financeira não precisa necessariamente fechar as torneiras do futebol. Um investimento, ainda que comedido, mas criterioso dentro de campo, certamente traria dividendos maiores ao clube. Apesar da verba escassa, o que havia foi desperdiçada em péssimas contratações de técnicos e jogadores. Muito dinheiro e planejamento jogados no lixo.

Houve, portanto, na Administração Peter Siemsen um verdadeiro paradoxo: a boa mão que cuidou das contas e da marca Fluminense não soube cuidar do futebol com o mesmo zelo.

É claro, nada pode ser perfeito e o torcedor, que é paixão, talvez tivesse preferido menos equilíbrio financeiro e mais títulos.

Peter deixará um legado formidável para seu sucessor: projetos encaminhados, um CT de primeiro mundo e dívidas equacionadas. E isso deve ser lembrado sempre. Por outro lado, o novo presidente deverá ser diferente em tudo do que Peter foi na gestão do futebol. E essa é a parte de sua Administração que deve ser esquecida.


De toda a sorte, não há como se negar que Peter Siemsen escreveu seu nome na história do Fluminense Football Club. Para o bem ou para o mal. Em novembro, a sua verdadeira avaliação será dada nas urnas, o local adequado para expressarmos a nossa vontade. Afinal de contas, o Fluminense somos todos nós, agora literalmente.