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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Foco e paz

Embora possa não parecer, eu gosto tanto de futebol quanto de política. São assuntos que, invariavelmente, ocupam parcela considerável das minhas elucubrações diárias. Mas tanto um quanto outro eu trato de forma reservada. Futebol, só com tricolores e, política, apenas com a minha consciência ou com um ou outro que me procure reservadamente.

Digo a política “política”, aquela que, gostemos ou não, vivenciamos no dia a dia e que, desde sempre, nos causa, com ou sem razão, enorme abjeção. Tramoias, negociatas, esquemas obscuros, corrupção, falsidades e outras manifestações nefastas que, justa ou injustamente, estão indissociavelmente relacionados aos políticos e às suas atividades.

Eu acreditava, porém, que essa “política rasteira” jamais pudesse se misturar ao futebol, ao ambiente clubístico e suas disputas eleitorais, uma vez que as eleições, em regra, e especificamente em relação ao Fluminense, sempre foram restritas aos seus sócios-proprietários, o que não extrapolava um quadro bastante restrito de eleitores.

As campanhas, assim, se desenvolviam de forma “mais ou menos” harmônicas, oportunidade em que as intrigas, as acusações levianas ou mesmo as fundamentadas, restringiam-se às discussões nas áreas sociais do clube sem maiores repercussões extramuros.

Ocorre, contudo, que as próximas eleições presidenciais do Fluminense ocorrerão daqui a aproximadamente um ano e dela poderão participar, por disposição contratual e estatutária, mais de vinte mil sócios, incluindo-se, aí, os da categoria sócio-torcedor.

Essa expansão abrupta do número de eleitores trouxe duas consequências imediatas: democratizou o processo eleitoral, proporcionando ao torcedor “comum” (leia-se aquele que não era sócio-proprietário ou contribuinte do clube) a oportunidade de decidir os rumos do Fluminense, mas, por outro lado, trouxe aquilo que há de pior na política cotidiana para a disputa eleitoral.

Com um colégio de eleitores que ultrapassa o de muitas cidades no Brasil, situação e oposição precisam mostrar serviço. Talvez por isso, a disputa eleitoral já esteja em plena efervescência há meses. E o pontapé inicial coube ao nosso atual presidente, que deixou clara a sua predileção pelo atual vice de futebol, Mario Bittencourt, para substituí-lo em 2016.

Transformou-o, de um dia para o outro, de advogado do clube a vice de futebol. Seria como, por exemplo, um prefeito que desejasse fazer o seu sucessor, o indicasse para a secretaria de obras do Município Com tratores e asfalto muitos votos são conquistados.

Pois foi exatamente isso o que o presidente fez, deu a Mario asfalto, tratores e tudo o mais para que, como vice de futebol, mostrasse ao eleitor que poderia ser tão brilhante quanto o é como advogado.

Acontece que o asfaltamento esburacou rapidamente e os planos de mostrar Mario Bittencourt como candidato imbatível à sucessão presidencial mostraram-se precipitados e irresponsáveis.

Crises, desmandos e outras turbulências foram a tônica da gestão do atual vice de futebol, situações que interferiram diretamente no desempenho do time dentro de campo.

O Fluminense tornou-se, então, campo fértil para que parte da oposição pudesse trazer à tona deslizes administrativos e criticar, construtivamente ou não, com razão ou não, os desmandos da atual administração.

Transmudaram-se, assim, todas aquelas práticas nefastas para o ambiente eleitoral do clube. A máquina administrativa trabalhando a todo o vapor pelo seu candidato e, parte da oposição, torcendo para o “quanto pior melhor”.

Ninguém pode antecipar quem levará a melhor nessa disputa, mas o que se pode dizer, de antemão, é que as disputas internas pelo poder no clube trazem ao futebol os reflexos das mazelas dessa guerra política, interferindo direta e negativamente nos resultados dentro de campo.

Se alguém auferirá frutos nas urnas dessa derrocada tricolor nos últimos anos, também não se pode prever. Há que se considerar, no entanto, que o Fluminense tem boas chances de conquistar mais um título nacional daqui a poucas partidas e, independentemente do que a conquista dessa competição possa acarretar em termos políticos, é preciso que situação e oposição estejam imbuídas de que o importante neste momento (e deveria sê-lo em todos os outros também) é o Fluminense.

Menos vaidade à situação, mais consciência à parcela da oposição é tudo de que o Fluminense precisa para seguir adiante o seu caminho rumo à conquista de mais uma competição nacional e à tão sonhada vaga na Libertadores de 2016.

Todos somos testemunhas de quanto as intercorrências políticas prejudicaram o desempenho tricolor nos últimos anos e ninguém, que se arvore verdadeiramente tricolor, deseja que esses conflitos internos prossigam atrapalhando os rumos do Fluminense.

O momento, portanto, é de foco na Copa do Brasil e de paz interna, nem que essa paz seja, na verdade, apenas uma trégua, porque o interesse maior sempre deverá ser o do Fluminense.




terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Oposição, consciência e ética.

(Publicado no site Panorama Tricolor em 28.12.2014)

O objetivo deste texto não é o de tratar da oposição tricolor em suas especificidades, em miudezas. Ao contrário, busca traçar um panorama genérico de como deveria funcionar uma oposição ou situação consciente de que nenhum interesse particular deve suplantar o interesse maior da instituição Fluminense Football Club.

Faltam, assim, dois anos para as eleições presidenciais do Fluminense e já se apresentam, oficialmente ou não, correntes contrárias à atual gestão tricolor que, reconduzida à presidência em novembro de 2013, mostra os sinais de um desgaste natural após dois mandatos consecutivos. Até mesmo Celso Barros, presidente da ex-patrocinadora do Flu, já manifestou expressamente seu interesse em participar, não se sabe ainda se apenas através de apoio a algum grupo político de oposição, ou mesmo como candidato à própria presidência, da disputa eleitoral. De toda a sorte, Celso Barros já é oposição, ou já era há algum tempo e somente agora, com o rompimento oficial da parceria, pôde deixar isso bem claro.

Não que a formação de grupos oposicionistas decorra necessariamente da existência de um pleito próximo, mas, naturalmente, eles se robustecem à medida em que o caminho até o próximo se avizinha tormentoso para a atual administração.

Certamente, o Presidente Peter Siemsen, impossibilitado de se reeleger uma terceira vez, apoiará um candidato que encampe seus ideais e siga a sua linha política, o que desde já provoca a repulsa de tricolores decepcionados com a sua gestão. Quando digo decepcionados, entendo que este seria o termo adequado para quem quase que unanimemente o reelegeu há pouco mais de um ano. Foi um massacre nas urnas contra o candidato da oposição, Deley; uma vitória contundente e respaldada menos por seu desempenho como gestor de futebol do que por sua capacidade administrativa – afinal de contas 2013 foi um ano catastrófico dentro dos gramados para o Fluminense – e favorecido, ainda, pela vetusta corrente política que apoiava o seu adversário. Nesse sentido, preferi o termo “decepcionados” a, por exemplo, “revoltados” ou “indignados”, porque grande parte dos que hoje contestam a sua gestão, muito provavelmente, em algum momento, já o apoiou e acreditou em seus projetos.

Pois bem. O ano de 2014 também não foi bom para o Tricolor e o de 2015 insinua-se ainda mais turbulento ante a drástica redução das verbas destinadas ao futebol pela recente perda do patrocínio-master da Unimed; e, é nesse cenário fértil às críticas e cobranças, que as correntes oposicionistas tendem a proliferar. Infelizmente, é uma realidade cruel e não afeita apenas à política interna dos clubes de futebol. Muito ao contrário, trata-se de reflexo da política que se vê no dia a dia, nos gabinetes executivos e legislativos, maquiavélica, porém real, nos assuntos internos de qualquer clube.

Nenhuma crítica aqui se faz à existência da oposição política. Assim como é necessária ao recrudescimento da democracia, porque dá ao cidadão a oportunidade de escolher, dentre as propostas existentes, aquela que melhor atende aos seus anseios para substituir o sistema vigente, também é fundamental, guardadas as proporções devidas, quando se trata das correntes de pensamento internas de um clube, aptas a renovarem o quadro político dominante.

A oposição consciente, tanto quanto necessária, é saudável. Barbosa Lima Sobrinho, brilhantemente, ensinou que  "Falta de oposição é fenômeno grave, porque nunca se sabe o que vai surgir. Se não há contestação cruzam-se os braços e aceita-se o fato consumado que, muitas vezes, no íntimo se repele." A contestação é, portanto, imprescindível para se modificar aquilo que não funciona, ou funciona precariamente no ambiente social e político em que vivemos.

Mas somente a oposição consciente e ética é saudável. A crítica, por mais ferrenha que possa parecer, deve vir acompanhada de sugestões, projetos e ser precipuamente ética. O ataque pessoal e o questionamento despropositado, gratuito e fulcrado somente na rivalidade política desconstrói a imagem de uma oposição coerente e capaz de revolver os alicerces que sustentam a corrente política da situação.

Nas próximas eleições presidenciais do Fluminense haverá, pela primeira vez, a participação efetiva do sócio-torcedor associado há pelo menos dois anos da data do pleito. Esse torcedor “comum” certamente decidirá o destino do clube em 2016 e é a ele que se deve tentar convencer, tanto oposição quanto situação, acerca do que é o melhor para o Fluminense.

Uma oposição sistemática, baseada apenas em ataques à gestão atual sem levar em consideração seus pontos positivos ou projetos alternativos, estará fadada ao fracasso. É preciso entender que, antes de ser oposição ou situação, o torcedor almeja o bem do Fluminense e, para tanto, deseja conhecer propostas, opções que possam tornar o clube cada vez mais forte. Nesse ponto, o torcedor também repudia a falta de ética, as ofensas gratuitas, porque com certa frequência, quem assim age procura apenas dissimular a sua incapacidade política para contrapor as ideias da gestão no poder. E isto é sinônimo de fraqueza.

O que importa realmente para o Fluminense é que as correntes oposicionistas, algumas já em franca campanha, e as que surgirem, tanto quanto a situação, promovam um debate no campo das ideias. Dessa forma, o torcedor poderá escolher de acordo com a sua própria consciência qual a melhor linha a seguir. A contundência das intervenções, assim, deve se ater às propostas e aos questionamentos coerentes, porque a oposição consciente valoriza o debate e constroi um ambiente propício ao engrandecimento do clube mostrando-se como opção viável ao projeto vigente.

E é disso que o torcedor precisa, de uma alternativa viável, caso seja de seu interesse mudar o que aí está posto.

Serão dois anos problemáticos pelas dificuldades financeiras que o clube fatalmente enfrentará. Tudo o que o Fluminense não precisa é de que esse biênio seja transformado, também, num período de conturbada atividade política que perturbe ainda mais o seu ambiente interno. Para tanto, oposição e situação devem se conscientizar de que mais do que seus próprios interesses é o interesse do Fluminense que deve preponderar e de que o embate saudável, adstrito às ideias, tornará a campanha eleitoral apta a fornecer aos eleitores opções verdadeiramente comprometidas com o futuro tricolor.

A antecipação do debate eleitoral é aceitável e até previsível diante do quadro que se apresenta; esse largo período tanto pode ser útil à construção de um projeto político eficaz e à conscientização do eleitor, como pode ser, por outro lado, um obstáculo à caminhada do Fluminense rumo aos seus objetivos. Nessa toada, importante distinguir o homem da instituição; nem sempre se atinge o primeiro sem que sofra consequências a segunda e, portanto, toda cautela é pouca no agir.


Sejamos políticos mas, sobretudo, sejamos tricolores.