Mostrando postagens com marcador ídolo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ídolo. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Emmanuel Coelho Netto, um herói tricolor

Emmanuel Coelho Netto, o “Mano”, morreu em 1922. O Brasil alcançava o período do modernismo cultural, quando “Mano”, ponta direita do Fluminense, entrava em campo contra o São Cristóvão e recebia uma forte pancada no abdome. Foi retirado de campo e massageado, mas como naquela época ainda não havia as substituições, mesmo sem condições físicas, tornou ao campo de jogo, agravando seu quadro, apenas para não prejudicar o seu clube do coração, permanecendo até o final da partida. Morreria 48 horas depois, no dia 30 de setembro de 1922, de infecção generalizada em decorrência do golpe sofrido. [1]

O “Mano” era o irmão mais velho  - de um total de doze – de João Coelho Netto, o “Preguinho”. Este, justamente aclamado como um dos maiores ídolos da história do Fluminense Football Club, multiatleta, campeão em oito modalidades esportivas e que, em 1925, após sagrar-se campeão de natação ajudou o seu clube a conquistar uma vitória no futebol, um verdadeiro campeão de terra e mar.

Mas a história de “Preguinho”, morto em 1979, após mais de seis décadas dedicadas ao seu clube do coração, é bem mais conhecida e reverenciada pelos torcedores, um mito que será lembrado pela eternidade como um dos maiores, senão o maior nome que já envergou a camisa tricolor em todos os tempos.

Por isso faço aqui uma exceção para falar de “Mano”, cujo sangue dos Coelho Netto honrou com galhardia, desfilando seu talento pela equipe amadora do Fluminense desde o ano de 1915 até a sua morte sete anos depois. Praticamente um desconhecido por grande parte da torcida, embora seu gesto de sacrifício supremo tenha o condão de elevá-lo ao patamar dos maiores ídolos tricolores, “Mano” é um herói que o Fluminense não pode esquecer.

Emmanuel Coelho Netto foi um desportista tricolor que honrou a camisa de seu clube e, literalmente, morreu por ele. Era outra época, por certo, uma época romântica, onde o amadorismo era a fiel expressão de que os atletas competiam por amor aos seus clubes.

Impensável hoje em dia, afinal de contas o profissionalismo, que tanto impulso deu ao futebol, também foi o responsável pelo sepultamento do “amor à camisa”. Apesar de saudosista, não prego um retorno do futebol àquela época. São outros tempos e o profissionalismo, para o bem ou para o mal, está fincado em raízes tão profundas que jamais poderia ser arrancadas.

Quando penso em “Mano”, porém, assim como quando penso em “Preguinho”, Castilho, Telê, por exemplo, penso em heróis. Heróis de carne e osso, gente que deu o suor, deu o sangue, deu a vida pelo Fluminense sem esperar nada em troca, senão a vitória dentro de campo. Penso no exemplo desses homens para as gerações futuras, penso que suas histórias deveriam ser transmitidas de pai para filho, penso que o clube deveria fomentar a divulgação desses belos exemplos de amor incondicional ao clube do coração entre seus atletas.

O exemplo arrasta, já se disse. E, conquanto os grandes ídolos tricolores já não estejam mais entre nós para contar suas histórias de amor ao Fluminense, seus exemplos permanecem vivos, como o do dedo amputado de Castilho, do contrato de “um tostão” firmado por “Preguinho” para se profissionalizar – profissionalismo que se negou a aceitar por toda a sua vida como  jogador do Fluminense, porque para ele era impensável receber para defender as cores do clube amado – e, sobretudo, o da própria existência de “Mano”, sacrificada por seu desejo incontido de defender o Fluminense, mesmo após grave lesão sofrida em campo de jogo.

São os exemplos desses heróis que devem ser contados todos os dias. Há muitos dentro do Fluminense que precisam conhecê-los. Gente que se locupleta do clube, que pratica malfeitos e de outros, ainda, que se arvoram maiores do que a instituição.

Voltar no tempo é uma quimera, mas trazer os bons exemplos de volta é uma medida que pode não curar os males do Fluminense atual, mas fará aqueles que ainda têm um pingo de consciência repensarem suas atitudes: funcionários, dirigentes e jogadores, além de dar ao torcedor um paradigma a seguir a fim de que possa reconhecer quem serve ao clube e quem se serve dele.

“Mano”, por ocasião dos cinquenta anos de sua passagem, em 1972, teve uma placa de bronze oferecida pelo clube em sua homenagem. A placa eternizou o herói. Que o eternizemos, também, não deixando que o seu exemplo morra em nossas lembranças e corações.



[1] BARBOSA JR. WALDIR, Preguinho – Confissões de um Gigante – Depoimentos do atleta João Coelho Netto ao Jornalista Waldir Barbosa, Edição do autor, Rio de Janeiro, 2013.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Quanto vale Fred?

(Publicado no site Panorama Tricolor em 08.02.2015.)


Quando Fred renovou o seu contrato com o Fluminense - segundo consta por um valor inicial inferior ao que recebia, oitocentos mil mensais, com reajustes anuais progressivos até o patamar de novecentos e cinquenta mil reais em 2019, último ano de seu contrato - algumas vozes se levantaram para denunciar o que seria um péssimo negócio para o Flu e um ótimo para o jogador. Já em fim de carreira, segundo os críticos mais mordazes, e sem condições físicas de ser o atleta de outros tempos (neste ponto esquecem a sua recente artilharia na última versão do campeonato brasileiro e a que já se esboça neste estadual), esse novo contrato seria uma espécie de nababesca aposentadoria. Dinheiro fácil até o fim de sua carreira como jogador de futebol.

Não tenho uma bola de cristal para prever o quanto Fred renderá dentro de campo, se fará ou não jus a esse vultoso salário com a bola nos pés, ou mesmo se o Fluminense terá saúde financeira para pagá-lo.

Mais do que a discussão de valores, porém, o sim de Fred à proposta tricolor representou não somente o seu desejo de continuar no clube, mas, sobretudo, o seu aval, uma espécie de "eu acredito", a um novo projeto que outros atletas rejeitaram. Acreditar nessa nova realidade financeira, sem o lastro do derrame de dinheiro proporcionado pela finada Unimed, e colaborar, com seu status de líder e ídolo, para que os novos e, certamente, árduos tempos sejam de esperança por um futuro melhor, foi uma demonstração inequívoca de fé de que muitos olvidavam. Sua decisão, provavelmente, influenciará outros jogadores a seguirem o mesmo caminho – Jean e Wagner, por exemplo – e mostrará a todos que o Fluminense está vivíssimo, em que pese toda a negatividade, intra e extramuros, que vivenciamos desde o rompimento com a ex-patrocinadora.

O aceite de Fred, assim, teve, num primeiro momento, um valor preponderantemente simbólico. Simbolismo que representa no âmago de seus companheiros, dos dirigentes e da torcida um fator psicológico importante para que a equipe acredite no seu potencial e lute por títulos, dirigentes esmerem-se por honrar os acordos firmados e torcedores acreditem num ano melhor do que os dois últimos.

Mas Frederico também é goleador – não nos esqueçamos disto –, duas vezes artilheiro do campeonato brasileiro, edições 2012 e 2014, e sétimo maior artilheiro da história do Flu, com a possibilidade real de alcançar a vice-artilharia nos quatro anos que lhe restam de contrato. Ser o vice de Waldo, com 319 gols, não é para qualquer um; e, se fizer mais 43, atingirá o feito, ultrapassando Orlando Pingo de Ouro. Escreverá seu nome no pedestal dos maiores ídolos da gloriosa história Tricolor.

E se alguém ainda consegue questionar o seu custo-benefício, deveria saber que o nosso goleador, mesmo fora das quatro linhas, pode trazer ótimo retorno financeiro para o Fluminense. A confirmação da sua permanência, por exemplo, foi suficiente, por si só, para antecipar a renovação do patrocínio da Frescatto por mais um ano, garantindo mais quatro milhões de reais para os cofres tricolores – oito milhões por dois anos de contrato. E eu não duvido de que o seu nome vinculado ao clube por mais quatro anos seja fundamental para que fato semelhante também possa ocorrer em relação ao contrato firmado com a Viton 44 e, ainda, para atrair novos investidores.

Fred, portanto, também faz dinheiro e, bem explorado por um marketing eficiente, pode fazer muito mais.

Escrevi há alguns dias sobre idolatria e subjetivismo. Aceitemos ou não, Frederico é ídolo. Se não o seu, o de milhares ao seu redor. Minha filha, de oito anos, é sua fã. Para ela, falar em Fluminense é falar em Fred. Uma colega, flamenguista, já foi até as Laranjeiras e obeteve um autógrafo e uma selfie com seu ídolo. E assim é por todo o Brasil. Dom Fredon arrasta atrás de si uma legião de fãs, tricolores ou não.

Esse potencial, contudo, pode e deve ser melhor explorado. Fred vale não apenas pelo que é, mas pelo que pode vir a ser. O seu nome, associado a qualquer ação de marketing, qualquer produto, pode se traduzir em expressivo retorno para o Fluminense, seja financeiro, ou de exposição de sua marca, o que, invariavelmente, também se traduz, no fim das contas, em dinheiro. Quando se pretende impulsionar o projeto de associação ao clube, poder-se-ia pensar numa forma mais efetiva de se utilizar o garoto propaganda da empreitada. Ações presenciais e frequentes com o artilheiro, por exemplo, poderiam tornar-se um chamariz eficaz para atrair mais sócios.

Quanto vale Fred, então? Muito para os seus fãs, pouco para os seus detratores. Afora as opiniões extremas justificadas pela paixão, Frederico representou, representa e ainda representará muito para o Fluminense; seja por suas participações em dois títulos nacionais, seja pelas artilharias, pela liderança e dedicação dentro de campo; seja também pelo crédito de confiança que deu ao novo Fluminense, pela sua capacidade de atrair investimentos ou pela sua condição de ídolo de miríades de torcedores, fator crucial para um marketing agressivo e rico em contrapartidas para o clube.

Falta, entretanto, ao Fluminense, um marketing à sua altura.

Raro, se muito, um atleta profissional que ame o seu clube no futebol moderno. Mas se houvesse algo próximo do que se pudesse ter por esse nobre sentimento, talvez esta seja a relação que vivem Frederico e Fluminense, entremeada de guerra e paz, gáudios e tristezas, como nos casamentos mais duradouros. O “fico” do artilheiro estabeleceu um liame definitivo de cumplicidade e respeito recíprocos que a história se encarregará de contar aos futuros torcedores como uma das relações mais longevas e gloriosas do Fluminense.

Muito já critiquei Fred e muito ainda o criticarei, por certo, mas isso não me impede de reconhecer nele o seu valor como um dos mais importantes atletas que já envergaram a camisa tricolor.